Progresso Material

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Coluna Literatura em Foco (Ruan Vieira) – Certas pessoas se deixam levar pelo poder financeiro e dedicam a sua vida em busca de mais dinheiro, pois veem o dinheiro como algo essencial para a vida. Assim era o João Filipino, um empresário respeitado e admirado pelos seus amigos e funcionários. João Filipino começou muito cedo a vida nos negócios, ele se jogou no mundo afora em busca de ter seu próprio negócio, ganhar seu próprio dinheiro e assim ser respeitado. João Filipino acreditava que se conseguia respeito através de seu status. A sociedade de sua época realmente dava ênfase aos vencedores. Pois na sociedade quem não trabalha e não tem dinheiro não é vencedor, é um perdedor. Mas João Filipino não queria ser visto pela sociedade como um perdedor, ele queria respeito, queria mostrar para as pessoas de sua cidade que ele também podia ostentar. João Filipino, influenciado pela sociedade, dedicou-se aos seus interesses e buscou montar seu próprio negócio. Aos poucos, ele foi se distanciando de casa. Sua esposa, Guilhermina, estava achando estranho as atitudes de seu marido. – Você só pensa em dinheiro, João! – dizia ela.

– Estou fazendo isso por nós! Acha que eu vou deixar as pessoas nos verem como um ninguém? – dizia ele.

– Então você tem vergonha de a gente ser visto como um ninguém? – perguntou Guilhermina.

– Sim! – disse João.

Guilhermina e Filipino tinham um filho, chamado Guilherme Filipino. O seu filho tinha 10 anos e era mais próximo da mãe, já que seu pai mal ficava em casa. João Filipino pegou uns empréstimos e montou uma loja de sapatos. Ele também contratou algumas pessoas para lhe auxiliarem. Com o tempo seu negócio foi crescendo e gerando lucros. João foi mudando na medida em que seu negócio dava dinheiro. Ele via a sua esposa com outros olhos e dizia para o seu filho se espelhar nele. – Siga meu exemplo, Guilherme. Aprenda com seu pai e busque ter uma vida financeira boa. – Dizia ele. Guilherme o ouvia, mas não concordava com a visão de mundo de seu pai. Guilhermina estava sentindo falta de seu marido, de como ele era no início do casamento. Ela lembrava que ele não era tão arrogante e egoísta e não se importava com o que as pessoas iam dizer. Mas o dinheiro mudou João Filipino e ele sofreu uma transformação. Ele sempre dizia que era pela família, mas no fundo Guilhermina sabia que não era. Certa vez, ela foi ao trabalho do marido para vê-lo, ao chegar lá encontrou dois funcionários cochichando algo na hora do trabalho. Ela entrou na loja e perguntou onde estava seu marido. – Ele está lá dentro. – disse uma funcionária.

Guilhermina se dirigiu à sala onde estava seu marido e ao chegar perto da porta o ouviu falando no telefone: – “Que nada, primo. Já estou cansado dessa mulher, ela não trabalha e fica me criticando por que eu trabalho. Ela devia era me agradecer por colocar dinheiro em casa, comida na mesa. Até meu filho está do lado dela. Eu já falei pra ele qual o caminho, agora se ele vai me ouvir, não sei.”

Guilhermina ficou chateada e entrou. – Como é, João? Eu me preocupo com você e você me trata assim pelas minhas costas? – perguntou ela.

– Mas eu estou mentindo? Você trabalha? – perguntou ele.

– Eu já trabalhei, no momento estou sem trabalhar. Mas eu sou dona de casa e faço minhas tarefas em casa! Eu lavo, varro, cozinho pra você, auxilio nosso filho nos deveres da escola e você diz que não trabalho? Eu acho que você está se referindo ao fato de eu não estar pondo dinheiro em casa! Porque pra você tudo é dinheiro! – disse ela, num tom de euforia.

– Dinheiro é progresso! Você faz suas tarefas, é o mínimo que você pode fazer. Eu estou aqui trabalhando pra gente. Deveria me agradecer. Sem mim você não tinha chegado aqui. – disse ele.

Guilhermina ouviu essa última fala de João Filipino e disse: – Pois, então! A partir de hoje, você pode ficar com seu dinheiro, porque eu não quero seu dinheiro! Eu me casei com você, não com seu dinheiro! Eu quero um homem de verdade, não um moleque como você, seu arrogante egoísta! Eu só quero amor, mas isso pouco importa pra você! Eu só quero que você seja mais presente na vida de nosso filho e na minha.

João Filipino começou a rir e disse: – Meu bem, amor não põe comida na mesa. O mundo hoje é regido pelo dinheiro, eu vou fazer o quê? Eu vou buscar meu progresso e se você não quer participar, pode ir embora. Mas eu quero falar com meu filho antes!

Guilhermina começou a chorar e foi embora. Ao chegar em casa, ela arrumou algumas roupas e ia voltar pra casa da mãe. Seu filho, Guilherme, chegou da escola e encontrou sua mãe aos prantos. – O que foi, mãe? Foi o papai? – perguntou o pequeno garoto.

– Não foi nada, meu filho. Mamãe só está triste. Olha, vamos passar um tempo na casa de sua vó, tudo bem? – perguntou ela.

Guilherme era apegado à vó e disse com alegria que tudo estava bem. Ele correu para o quarto e arrumou sua mochila, pôs alguns brinquedos e roupas. João Filipino havia comprado um carro e ainda estava pagando algumas parcelas. Ele entrou no carro e foi pra casa. Ao chegar lá, encontrou com Guilhermina e seu filho saindo de casa. – Vai pra onde com nosso filho? – perguntou ele.

– Não interessa! – exclamou ela.

João Filipino pegou o filho pelo braço e disse: – Filipino! Você vai embora com ela? Pense bem! Ela não tem condições de te sustentar, eu tenho! Você não vai ganhar brinquedos novos, roupas novas. Você sabe que papai pode te dar tudo isso, não sabe? O que você me diz?

Guilherme olhou nos olhos do pai e disse: – Eu não quero o seu dinheiro e eu vou com a mamãe porque eu sei que ela pode me dar o que o senhor não pode.

João lhe perguntou: – O quê?

– Amor! – disse seu filho.

Guilhermina segurou na mão do filho e o levou embora. João Filipino ficou só. Às vezes, a solidão tem o poder de nos fazer repensar, fazer-nos refletir, mas o período de solidão do João não lhe fez repensar, mas se dedicar ainda mais ao seu crescimento na cidade. Ele queria mais, queria mais poder. Então resolveu montar uma outra loja, agora de roupas. João Filipino lançou sua marca no mercado. “JF, roupas e calçados”, ele havia pegado mais um empréstimo. O tempo foi passando, Guilhermina havia se separado de João e estava trabalhando como recepcionista num escritório de advocacia. Ela e seu filho haviam saído da casa de sua mãe e estavam morando numa casa alugada. João Filipino estava em alta na cidade, era um homem respeitado, não pelo o que era, mas pelo o que tinha. Ele estava de bem com vida. Porém, o poder às vezes nos faz ficar cegos e nos leva a cometer erros. João Filipino ficou endividado e não conseguiu pagar todo o dinheiro que havia pegado emprestado. Ele fechou uma das lojas e teve que vender seu carro. A cidade ficou sabendo de sua dívida e muito se falava sobre. A dívida de João ainda não havia sido totalmente paga, por conta do atraso. Porém, ele tinha até o final do dia para conseguir 5.000 reais e assim quitar sua dívida. As fofocas se espalharam e chegou ao conhecimento de sua ex-esposa. Ela havia trabalhado antes e tinha um bom dinheiro guardado. As horas passaram e João não havia conseguido o dinheiro. Ele estava desesperado, pois se não pagasse perderia a sua loja e assim ficaria sem nada. O dinheiro que ele tanto se dedicou para conseguir, por ironia do destino, estava o derrubando. A noite chegou e o prazo para o pagamento havia passado. João ligou para o gerente do banco e pediu mais um dia. O gerente lhe disse que ele não se preocupasse. – Por quê? – perguntou João.

– Porque sua dívida já foi paga. – disse o gerente do banco.

– Mas por quem? – perguntou João.

O gerente da loja lhe disse que não sabia. Mas que já estava tudo certo entre eles. João Filipino se sentiu aliviado. Ele continuou com a sua loja e com o mesmo pensamento voltado para o progresso material, também continuou cego e não se deu conta de que quem havia pagado sua dívida foi sua ex-esposa, Guilhermina.

Ruan Vieira
Coluna Literatura em Foco

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