Sistemópolis

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As pessoas estavam cegas, cada vez mais alienadas, viciadas em consumo, endividadas por influência midiática, por influência social, a mera busca por status subiu à cabeça dos habitantes de Sistemópolis. Raul estava cheio daquela cidade. – Eu preciso sair daqui! Senão, ficarei doente, como essas pessoas. – dizia ele.

Sistemópolis era uma cidade sistematizada, habitada por pessoas automatizadas. Elas copiavam umas as outras, na roupa, no modo de agir, de falar, nos comportamentos, hábitos e no modo de pensar. A inveja era uma das principais características dos habitantes de Sistemópolis. Certas pessoas se sentiam ameaçadas pelo o que o outro tinha, sentiam-se infelizes e perturbadas por também não terem. Era preciso darem um jeito para também terem, elas não conseguiam viver sua própria vida, tinham que viver a vida dos outros. O problema era que nunca chegavam a uma satisfação plena, pois eram por natureza insatisfeitas. A inveja os cegava, o desejo os cegava e elas se apertavam para se encaixar na cidade. Era muito comum as pessoas fazerem comparações. As pessoas eram inquietas e sempre arrumavam problemas.

Raul era um dos habitantes de Sistemópolis, mas ele, ao contrário dos demais, só queria viver a vida dele em paz, longe de toda aquela bagunça. As pessoas eram influenciadas, não só entre elas, mas também pela mídia, pelo sistema estabelecido por elas mesmas. A mídia tinha um papel bem relevante em Sistemópolis, cooperava para a divisão de pessoas, para a segregação, vendiam falsas verdades, influenciavam as pessoas em certas ideologias, que muitas das vezes, eram prejudiciais ao convívio em sociedade. A mídia incitava as pessoas a comprar, ao consumo exacerbado, vendiam padrões de vida ilusórios e incitavam as pessoas a quererem se dedicar e buscar aquele padrão. Era comum, muitas pessoas mudarem de opiniões através da TV. Raul já estava de saco cheio, convivendo entre cópias. – Onde estão os originais? Os autênticos? – ele se perguntava. A sociedade estava uma bagunça, pessoas corriam de um lado para o outro, à procura de algo que as deixasse satisfeitas, felizes, empatadas, seguras. Era uma competição e, geralmente, competições não terminam bem, há sempre um vencedor e um perdedor. Mas os habitantes de Sistemópolis não queriam perder. Eles lutavam entre si, ninguém queria perder.

O sistema implantado na sociedade era o de venda e compra. As pessoas compravam, outras vendiam. As que vendiam obtinham lucros e as que compravam obtinham felicidade. Porém, estas últimas nunca alcançavam a felicidade, nunca supriam os seus desejos. A mídia, sempre em mudança, fazia propagandas de produtos novos e as pessoas já haviam comprado o que queriam antes, mas ficavam desesperadas para comprar mais. Todos corriam feito loucos, para comprar, para trabalhar, para vender, para alcançar a felicidade, o poder, o status, a fama, a glória. Raul percebeu que as pessoas estavam ficando doentes. Muitos estavam adoecendo. Enquanto corriam para obter dinheiro, para saciarem seus desejos de compra. As pessoas estavam ficando doentes mentalmente, as dívidas só aumentavam, as disputas em família, entre amigos, em sociedade, só aumentavam. As pessoas estavam se separando cada vez mais. As que tinham um trabalho e dinheiro se afastavam das que não tinham. As que não tinham dinheiro e trabalho estavam se matando, das pessoas que tinham dinheiro e das que não tinham, algumas estavam endividadas. A cidade de Sistemópolis estava se destruindo internamente. Raul decidiu partir logo e arrumou suas malas. – Não sei onde eu tô indo, mas sei que eu tô no meu caminho. – ele dizia consigo mesmo. Raul pegou sua mala e saiu a andar pela rua. Um mendigo lhe perguntou: – Pra onde você vai?

– Eu vou embora daqui. Para mim, já deu! – disse ele.

– Mas vai embora pra onde? – questionou o mendigo.

– Eu vou sair por aí sem destino. – disse Raul.

– Mas não é seguro lá fora, amigo. – disse o mendigo.

– E aqui dentro é? Você vai mesmo preferir a segurança em uma gaiola padronizada a ser livre e se libertar das amarras que te põem? – perguntou Raul.

– Eu estou velho! Já não tenho mais tempo pra enfrentar novos desafios… Eu aprendi a me acostumar a essa sociedade. – disse o mendigo.

– Não é um bom sinal de saúde mental se acostumar a uma sociedade doente como esta, meu amigo! – exclamou Raul.

– Mas é meu destino viver aqui, viver assim, eu já estou conformado. – disse, melancolicamente, o mendigo.

Raul o olhou e disse: – Isso não é coisa do destino, homem. Destino é a gente quem faz! Sistemópolis te levou a isso, pôs você na sarjeta e você permitiu. Onde está a mão do destino aqui? Eu só vejo a mão dos homens operando e controlando as marionetes. Levanta daí que você não se conformou, você desistiu e desistir não é opção. Eu estou indo embora, quero sair dessa bagunça. Se quiser me acompanhar, a hora é agora.

O mendigo olhou nos olhos de Raul e estendeu a mão, Raul o levantou e o mendigo lhe disse: – Eu vou com você, se eu morrer, que eu morra lutando, em movimento e não desistindo, parado.

Raul seguiu em direção à saída de Sistemópolis e levou consigo muitos habitantes. A maioria que permaneceu dentro do sistema morreram, alguns por suas próprias mãos, outros pelas mãos de outros. Os que seguiram Raul continuaram vivos e determinados em recomeçar suas vidas em outro lugar. Fora de Sistemópolis, o mendigo chegou a um pensamento: “A vida é bem mais apreciável aqui fora, em movimento, na natureza, do que dentro de um quadrado, entre muros. A liberdade, muitas das vezes, encontra-se na mudança de um lugar para o outro.”

Ruan Vieira

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