A metamorfose do índio em dragão de ferro

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“Só é cantador quem traz no peito o cheiro e a cor da sua terra,a marca dos seus mortos e a certeza de luta dos seu vivos”(Vital Farias)

Com esses versos o cantador Vital Farias introduz a saga da Amazônia no disco cantoria 1, gravado ao vivo na companhia de dois outros grandes expoentes da cantoria popular; Elomar e Xangai. Saga da Amazônia expressa o sentimento de revolta do poeta com a devastação da floresta e o extermínio dos povos indígenas.

A obra saga da Amazônia rendeu ao cantador o reconhecimento internacional como um ardente defensor das causas ambientais.

  Vital não teve a fama e a notoriedade de seus conterrâneos Zé Ramalho e Elba Ramalho, mas compôs grandes obras que foram interpretadas por artistas famosos. A Elba ele entregou a canção ( ai que saudade de oçê) que é, até hoje , uma das marcas da artista paraibana. Na voz de Marília Barbosa ele teve uma de suas primeiras composições incluídas na trilha sonora da novela da rede Globo Saramamdaia de 1976.

  A exemplo de seu companheiro Elomar, a carreira  artística de Vital sempre esteve afastada da grande mídia, das cifras milionárias e do grande público. Seu público sempre esteve circunscrito as universidades e a intelectualidade e,na maioria deles, com tendências políticas no espectro da esquerda.

 E foi nos partidos de esquerda onde o próprio Vital iniciou a política partidária,no PSOL e PCB foi candidato a senador derrotado em duas eleições na Paraíba.

  Depois desiludiu-se com essa mesma esquerda e, dessa desilusão, compôs uma balada triste em repúdio a Lula e ao PT  ( tu enganasse uma vez mas não engana de novo). Dando uma guinada ideológica tal qual seus versos já anteviam numa outra obra genial ( veja ou Margarida).

” Veja meu bem,gasolina vai subir de preço.  Eu não quero nunca mais seu endereço.  Ou é o começo do fim,ou é o fim do começo “.

 A metamorfose de Vital foi muito além do ato democrático e espontâneo de repúdio a Lula, ele sucumbiu literalmente às teorias de conspiração tal qual seus conterrâneos famosos ( Zé e Elba Ramalho). Deixou a poesia para se entregar a mediocridade das redes sociais numa cruzada “cristã ” contra o apóstata comunista travestido de Papa”. O Vital que se declarava leitor de Marx e Weber nem se deu ao trabalho de ler a biografia do cardeal Bergoglio e,talvez nem saiba que são a mesma pessoa.

  Das ” furria ” de viola e dos versos passou às digressões facebuquianas sobre diversos assuntos,  sempre permeadas de conteúdo anti comunista. O vírus é comunista, o papa é comunista, o caos na saúde de Manaus foi criado pela esquerda .

  Nessa nova ” fase artística ” do genial Vital a nova saga da Amazônia agora não será cantada pelo sangue dos mortos, mas exaltada pela visão do ” dragão de ferro “.

(Paulo Costa Neto)

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