Um certo Martim Santiago: o capitão Lobo Santiago em 1700

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Ficção com realidade…

Há três dias e três noites que a tempestade não arrefecia. Lufadas de ventos fortes guerreavam com as escoltas, mastros e velas das quatro caravelas. Os ondas altas, fortes e gigantes esmurravam os costados levando as embarcações quase ao precipício do fundo do Atlântico. A noite era um grande negrume escarlate, qual boca negra do fim do mundo que tragava as naus – assim diziam os velhos marujos nos portos de noites enfurrajadas pelo tempo.

Os raios, relâmpagos e os trovões não cessavam, era tenebroso e verdadeira tormenta infernal. Solavancos, sobe e desce nas ondas, sensação de vômito, dor de cabeça e a febre do mares era o agravante na marujada mais nova. A travessia do Mar Atlântico era um teste para o Curriculum dos iniciantes.

Já passam de trinta dias que as caravelas haviam buscado a travessia do Atlântico após percorrer uma grande rota de mercadorias por outros portos. Iam agora i Brasil. Os marujos já estavam aflitos. Naquela noite infernal, o Gajeiro gritou mas forte que o vento: – Luzes à vista à bombordo!  Luzes à vista à bombordo! Martim Santiago – O lobo Santiago – era o Piloto do Santa Rosa, ao ouvir a mensagem consultou o astrolábio e a bússola e por último foi ao quadrante. Após algum tempo disse ao Timoneiro: – Três graus  à bombordo e manter o curso firme! – Apertar velas! Gritou Martim Santiago. A terra não estava longe.

O grito despertou a marujada, passavam das 23 horas quando o Gajeiro Tiago anunciou luzes à bombordo. A tormenta não cessava e os solavancos na caravela ficavam fortes aqui e ali, ou diminuíam de acordo com as condições do tempo. Dois homens seguravam o timão do Santa Rosa que era seguido pelas demais  embarcações: Santo Antônio, Santa Maria, Grande Montes Luzia formando ao todo quatro caravelas ao lado da Santa Rosa, que seguia à frente das demais e a caravela capitânia, a Santa Rosa.

Com a notícia de luz às margens, foi então que o lobo Santiago pôde então relaxar um pouco, mas não sem antes deixar um recado para os dois homens que, mesmo sendo de sua confiança, ele não podia arrefecer com os marujos em termos de autoridade e ordem, pois são um tipo muito diferente de outros profissionais. Disse lobo Santiago para Joaquim e Gonçalves, que estavam ao timão:

Segurem firme o timão. Não deixe mudar o rumo ou enforco os dois no mastro mestre amanhã cedo! Em seguida, ele foi à cabine do Capitão, Armando Braga, e pegou os mapas, pediu chá e com o Capitão debateram sobre o porto onde iriam chegar. – Os cálculos indicam que estamos em algum lugar da costa entre Bahia de Todos os Santos e Pernambuco. Disse Armando Braga. – Não tenho certeza disso. Acho que estamos mais à baixo. Disse lobo Santiago firme. O Capitão Armando Braga o olhou firme, pois tinha respeito por àquele homem que era muito famoso entre os marujos e pelo largo conhecimento dele.

Eram pouco mais de duas horas da manhã quando Tiago, o Gajeiro, gritou novamente: – Mais luzes à vista! Mais luzes à vista! Armando Braga e Martim Santiago subiram ao convés e pegaram suas lunetas que agora sugeriam dar vistas que só anteriormente eram permitidas ao Gajeiro, no topo da Gávea que tinha maior visão. Observaram então os instrumentos e foi então que viram as luzes, a chuva havia cessado. Naquele momento Armando Braga percebeu que não estava no porto da Bahia, como defendeu e sim muito mais à baixo. Com isso, viu que lobo Santiago era mesmo o que diziam: bom piloto, exímio nos cálculos, firme, bravo e de confiança.

O porto que avistavam era então o atual Estado de Alagoas, terra dos índios Caetés. Haviam então se passado três horas desde o primeiro anuncio da vista às luzes pelo Gajeiro, sinal de que os pilotos cumpriram às ordens de Martim Santiago, o lobo Santiago.

José Martim Santiago, o lobo Santiago, era de uma pequena aldeia ao Norte de Portugal. Ali todos eram dos ofícios de pescador, calafates, carpinteiros navais, criadores de rebanhos, artesãos ou marinheiros. Seu pai, Jordão Santiago, era homem das águas, marinheiro Piloto. Deixou a mãe de Martim Santiago, Carolina Santiago, com seis meses de gravida e foi-se em um Galeão português onde passou três anos nos mares. Muitos diziam que ele havia morrido, seu navio, o Capitão João de Bragança, naufragado ou se perdido no mar. Um dia, o homem surgiu no porto. Era alto, barba e cabelo grandes. O Piloto Jordão Santiago, que voltava da grande aventura após três anos e seis meses, não havia envelhecido. Martim Santiago tinha então três anos de idade e quando o conheceu e familiarizou-se logo e nunca mais se desagarrou dele, por longos e breves quatorze anos.

Jordão Santiago, era meio espanhol e meio português. No dia de sua chegada houve fandango, comidas típicas, dança, cantoria, alegria, vinho e rum. Uma grande fogueira foi acesa na praia da aldeia e uma grande tenda erguida e a alegria entrou noite a dentro raiando até o outro dia e continuou por mais um dia e uma noite. Jordão era filho daquele lugar e um líder local. Sabia dosar entre gentiliza e firmeza. Trouxe algumas moedas e outros cobres que juntara da última viagem e investiu dando-lhe retorno e prosperando. Nos anos em que ficou na aldeia ensinou tudo que sabia do mar ao seu filho. Carpintaria naval, os cálculos e leitura do astrolábio, bússola e quadrante. Também a leitura dos astros, dos ventos, marés, do cheiro do mar, do jeito da ondas e do tempo. Construíram um pequeno barco do tipo corveta veleiro que passou dois anos para ser finalizado entre projeto, execução e finalização. Martim Santiago aprendeu a navegar ainda muito cedo e a fazer as leituras com os aparelhos e tudo mais ensinado. Um dia ele se aventurou sozinho com o barco que construíram sem que ninguém o visse zarpar. Adentrou o mar até perto do anoitecer e foi mar a adentro que perdeu a costa de vista e continuou. Toda aldeia ficou aflita. Sua mãe culpou ao esposo de tê-lo influenciado sobre os contos apaixonantes e as lendas dos mares. A noite caiu, a tempestade também e Martim Santiago não voltou, estava sem os instrumentos.

Se ele tiver apreendido os ensinamentos que dei, com sorte, voltará. Se não, será uma morte honrada, pois provou que pertence ao mar e não a terra. É um Lobo dos mares, o nosso Lobo Santiago. Carolina Santiago caiu em prantos e ficou mirando o mar na espera do filho voltar.

Em bom Mar, Martim Santiago, já batizado pelo pai de Lobo Santiago, fez a leitura dos astros, e se guiou de volta. Calculou a direção da costa e apertou as velas aproveitando a lufada de vento que vinha arrepiando as ondas fazendo-as aumentar de tamanho. A força do vento, ao encontrar seu barco, chamado de Marujo, a força do vento foi tão grande que, encontrando as velas presas pelas cordas – escoltas – o mastro só não quebrou porque o vento também surgiu ao contrário e amenizou o impacto o impulsionando forte sobre a primeira onda e assim se foi por mais de cinco horas de navegação. Chuva, vento e tempestade brandia em sua fronte, rugindo qual Leão do Mar em urros e vozes assombrosas dos relâmpagos. Ao cair das primeiras horas da madrugada avistou luzes distantes, “bom aviso aos navegantes”. Em seu mastro de centro surgiu um fogo de Santiago, que tanto ouvira falar pelos marujos desses acontecimentos inexplicáveis, como na travessia de Fernão de Magalhães. Se arrepiou, seguiu em frente e aportou já dia claro há mais de 300 quilômetros de sua aldeia. Foi recebido e percebeu que ali seu pai era conhecido. Todos ficaram chocados ao ver aquele menino de quatorze anos com a história que contou. Alimentou-se, descansou e partiu para casa com os bons ventos do mês de agosto, o das tempestades. Chegou em sua aldeia após quatro dias fora de casa. Ninguém acreditou em seu retorno, pois já o consideravam morto. A aldeia se alvoreceu, gritos de viva, aleluia, lágrimas e orações. Sua mãe em prantos o abraçou, foi levado nos braços. Seu pai, Jordão Santiago, de longe ficou olhando deixando que toda aquela cena se passasse para ter um pouco com seu filho, o pequeno Lobo do Mar, ou o Lobo Santiago como ficou sendo conhecido pelo resto da vida pela proeza fez.

Ao ir de encontro ao seu pai, sozinho e observado por todos à uma distância de mais de 100 metros, disse-lhe de cabeça baixa:

Desculpe pai. Errei com o senhor.

O pai ficou em silêncio um pouco e respondeu.

Não baixe a cabeça. Todo homem tem um destino. Alguns são bravos e fazem sua história e outros apenas participam da história como meros coadjuvantes, sendo apenas meras figuras ilustrativas dela. Você viajara para Algarve, vai estudar na Escola de Sagres de onde sairá um verdadeiro marinheiro. Será um bom Capitão e lobo do mar.

E assim foi que, um mês depois Martim Santiago, com a idade de 14 anos e seis meses já estava estudando em Sagres e seu feito sendo repercutido por todos ali. Enquanto isso seu pai, Jordão Santiago, deixava a aldeia de Monte Alverne para ir em outra aventura em um galeão que circundaria parte das índias e seguiria ao Oriente. Dizia ele que era homem do mar e que a terra é apenas um descanso para quem é marujo. Mesmo estando bem com os negócios ele se foi sem se despedir de Martim Santiago, deixou apenas uma carta para quando ele voltasse de Sagres: – Cuide de tudo e não seja apenas um marujo como eu, seja Capitão. Até breve! Nunca mais voltou, deixando todos os seus instrumentos de trabalho para Martim Santiago, o lobo Santiago.

Dez anos depois Martim Santiago voltava e já estava contratado por uma empresa portuguesa. Era então marinheiro auxiliar de piloto. Entretanto, lavou convés, costado de caravela, lubricou corrente de âncora e leme, ergue vela e puxou vela, trabalhou na gávea, carregou e descarregou navio, ajudante de cozinha, limpou latrina, bebeu cachaça, deu tapa como a peste e tomou também. Fazia parte do aprendizado de marinheiro. Ao ser convocado para trabalhar com os cálculos e o leme, ganhou atenção e admiração, a sua história de lobo Santiago chegou por um colega que estudou com ele em Sagres. A fama o fez respeitado e aos ouvidos de um certo Capitão Manuel Gonçalves, empresário que o olhava de longe. Era esse proprietário de vários navios e trabalhava para o rei de Portugal. Sua empresa transportava cargas de todos os tipos e ouro e prata. Tinha mais de três mil homens sob suas ordens, era rico e temido. Martim Santiago e o Capitão Manuel Gonçalves conversaram, a experiência com a força da juventude. Após dois anos trabalhando em Portugal na empresa Gonçalves & Fagundes, o lobo Santiago completou seus ensinamentos: aprendeu contabilidade, esgrima, espada, luta, inglês, dialeto angolano, italiano e francês. Conheceu malandros nas docas e as putas, baralho e xadrez, santos e demônios. Aos 32 no de idade ganhou o posto de Piloto e dali, se bem sucedido na empreitada, passaria para Capitão e assim seria: Capitão Martim Santiago, o lobo Santiago. E foi assim que estava naquela missão de dirigir as quatro caravelas que saíram de Portugal carregadas de mercadorias, passariam pelo atual Marrocos, Senegal, Angola, desceriam até Moçambique indo até Somália e voltado para Madagascar. Depois atravessariam o Atlântico na confluência saindo da Angola em linha reta até o Brasil. Uma jornada longa que foi percorrida e nessa fase final da travessia ao Brasil estavam há mais de trinta dias quando avistaram Alagoas, porém, o porto era a Bahia e depois Pernambuco de onde retornariam à Portugal. Estava prestes a se tornar Capitão e ter seu próprio navio, ao realizar o feito e por isso não poderia falhar.

Manter rumo firme! Porto à vista! Medir profundidade! Gritou o lobo Santiago com a barba ensopada da água da chuva. – Vento de calmaria se aproxima! Gritou da gávea Tiago. – Água doce! Estamos na foz de um rio. É profundo e correnteza forte! Informou o ajudante de bordo do piloto no convés de baixo. – Porto à vista! Disse Tiago lá no topo do mastro central, da gávea. Leitura de arrecifes!? ­Porto tranquilo! Águas calmas! Vento de calmaria! Desça do caralho! – Era assim que chamavam também a gávea. – Porto há duas milhas! Baixar velas! Contornar à vento Sul, sotavento e lançar âncoras ao Mar à uma meia milha! Foi a última ordem naquela madrugada que o lobo Santiago, Martim Santiago, havia dado. Se dirigiu aos dois pilotos, seus auxiliares e disse, o mar não é para aprendizes. O curso foi mantido.

Os cálculos do lobo Santiago estavam certos. Aos poucos as outras caravelas foram aportando uma a uma em segurança. Enquanto isso, as luzes que serviram de base para chegada e ancoragem das caravelas ao porto tremulavam distantes e já não eram mais avistadas. A mata se mostrava exuberante e dela surgiam vozes noturnas de aves e outros animais da noite. A chuva havia ficado para trás, no Mar Atlântico.

Estavam agora todos seguros. A autoridade técnica de lobo Santiago não era contestada nem pelo capitão, Armando Braga. O Sol não tardaria a chegar…

Por Adeval Marques

Continua na parte II

 

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