A reza do Nêgo Capivara do Urubu de Baixo

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No começo de 1700, século 18, a região do Baixo São Francisco – antigo rio Opará – era lugar de grandes matas, refúgio de negros escravos fugitivos, mestiços, índios e toda espécie de gente que para aquelas bandas procuravam viver isoladas pelos mais distintos motivos. Ali vivia um caçador que, entre tantos outros, se destacava por sua personalidade. Era o chamado por “Nêgo Capivara”. Na região era um homem tido como misterioso e bravo, além de exímio curandeiro. Escuro como a noite daquelas matas misteriosas dos bravos Caetés e Tupinambás, vivia sozinho na mata, isolado, às margens do Opará, em uma pequena cabana de caçador com seu cão, Tupã e um burro de porte robusto que ele chamava-se por Riachão. O meio de transpote era por água, possuía um barco que ele também denominou por navio. O Nêgo Capivara era um ser espiritualizado, dizia que conversa com as matas, sentia a voz das árvores, entendia o vento e a chuva. Conhecia ensinamentos que hoje estão perdidos pela sociedade moderna. Era filho de negro africano com índia Tupinambá da própria região do São Francisco, porém, criado nas matas e logo cedo aprendeu ensinamentos diversos, inclusive ocultos da religiosidade, africana e indígena.

O nêgo Capivara há muito que não descia da montanha, de onde morava no Vale do Urubu. Naquele dia comum, todos se alarmaram quando viram o velho caçador por ali no pequeno vilarejo. Ele chegava em seu barco, o navio, com seu cão Tupã e entrou na rua calado, como seu jeito peculiar, o silêncio e de poucas palavras. Seu cão, Tupã, sempre ao lado farejava e olhava duro para todos os lados. Era dia de chuva fina, o vale onde vivia tinha ficado ficado distante.

Agora no pequeno vilarejo, chamado de Caiçara, vestido em roupão, barba grande, portando facão, faca e espingarda, o chapéu quebrado ao lado o deixava ainda mais misterioso. Todos que o viram se perguntava: O que o Nêgo Capivara faz por aqui? Na verdade, ele se dirigia à casa de um velho amigo para fazer “trabalhos” de curandeiro e espiritual.

O Nêgo Capivara trazia em seu bornal de caça algumas ervas para o velho amigo, Cabana, que convalescia doente. Ensinou como prepara-las, como tomar a beberagem que inclui ervas muitas. Também ensinou o repouso que o amigo deveria ter para que o “trabalho” fizesse efeito. Deixou a noite sem Lua chegar e no quintal escuro do recinto fez fogo, reza e dança e queimou ervas, asa de gavião negro, casca de cobra, ponta de veado, colmeia de abelha, banha de animais diversos e foi misturando e recitando frase enigmáticas que não se podia entender. Ele sabia tudo das raízes e crenças das matas. Tomou a fumaça pelo nariz, bebeu um pouco da beberagem que foi cozida em uma panela de barro que trouxe consigo. A fumaça que vinha misturada com ervas, logo fez o efeito fazendo-o entrar em transe espiritual. Se amigo, Cabana, estava em uma cama de palha colocado no centro da tenda que foi feito para essa finalidade e sem que ninguém olhasse, apenas um menino ainda menor podia ver o “trabalho” e auxilia-lo no final da “reza”. E em voz, as vezes alta e as vezes baixa, recitava: Aki, kuntá, kerê, kerê, kerê. E saltava como um animal e ao descer ficava de quatro com a face retorcida e em seguida ficava de pé com a cara brava. Parecia que lutava com algo invisível. E continuava: Aki, kuntá, Kerê, Kerê, Kerê… Horas se passaram nessa luta entre santo e demônio. Suava, cambaleava, caia, sentia dor, pedia em voz alta: Tupã, Oxósi, Ogum, Aki, kuntá, Kerê, Kerê, Kerê. Exausto caiu ao chão e ficou por muitos minutos até que aos poucos ficou sentado, em grande rio de suor. Levantou-se e rezou uma Ave Maria em três vezes. Foi quando o pequeno menino lhe trouxe uma faca e as roupas de seu pai, Cabana, que foram queimadas e o defumador aplicado pelo Nêgo Capivara no corpo do amigo que disse: “A doença era de outros mundos. Deus na guia sempre, folha fina, sereno, luz e noite, repouso, fé e bença com reza nossa mãe rainha. Maldição volte para onde mora. Amém.”

O ritual começou cedo, a reza também e o transe no final. Quando a meia-noite passou o remédio foi aplicado em todo corpo do bom e velho amigo Cabana coberto por folhas já mortas e mornas. “As folhas da mata agora faz morada no corpo de suncê. Uma vida para dar a vida.”  Quando a madrugada chegou, antes que o Sol saísse do seu nascedouro, o corpo adormecido do doente foi colocado em sua cama em um quarto escuro por sete dias com a receita de alimento de costela de viado batida no pilão, com farinha de mandioca, a beberagem que foi feita com ervas, tomar banho antes do nascer do Sol, frutas de sapoti e chá de capim santo pra beber. Só poderia sair do quarto após sete dias.

Era ainda cedinho quando o Nêgo Capivara se despediu do amigo Cabana que ficara adormecido, fez a última benzedura e com o chapéu na mão se depedia. Ao chegar no vilarejo, apenas falou duas frases: “O amigo vai se curar. Tenha fé em Deus e nos orixá.” Ao sair pronunciou mais duas frase: “Cumpra os dias e os alimentos. Deus vai curar suncê.” E foi embora para o interior das matas onde vivia com a plena natureza, de um jeito bem ancestral. Tinha a tez cansada, cabeça baixa e em silêncio.

Passados três meses, ele recebia a visita de Cabana, que vinha montado em um cavalo, com seu cão Azulão, portando facão e espingarda. Apenas disse a frase para o amigo Nêgo Capivara: “Tô pronto caçar!” Capivara apenas respondeu: “Tome um banho no Opará, mergulhando sete vezes, Yemanjá é a última que vai abençoá. Quem tem fé em Deus, nada teme de má.” O velho Cabana estava curado e Capivara mais misterioso ainda para todos que o conheciam. Quem era aquele homem, todos se perguntavam.

Por Adeval Marques
Do livro não publicado “O Capivara de Propriá”
Conto de ficção

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