Emancipação de Propriá: História perdida e reflexões atuais nesses 218 anos

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Propriá/SE – São 218 anos de História que não foi contada com detalhes e a falta de reflexão sob os aspectos que a colocam em profundo atraso no desenvolvimento intelectula e motor.

Todos os anos Propriá comemora sua Emancipação Política. Obviamente que a comemoração visa manter a memória histórica do fato que aconteceu sob a égide da Resolução Provincial de nº 755 em 21 de fevereiro de 1866. O decreto-lei torna então Propriá Emancipada, ou seja, passa a ser um território/município, com limites geográficos, administração própria, se autogerindo produzindo economia em benefício próprio, podendo criar leis, planejamento motor e projeção. Emancipar-se significa estar livre de algo e ser dono de si mesmo. Entretanto, a Emancipação Política de Propriá é carente de maiores informações detalhadas de como se dá esse momento e, sua sonolência e o futuro.

Acontece que Sergipe em 1600 é um território recém anexado à Bahia pelo Capitão da Coroa Portuguesa, Cristóvão de Barros que chega em Sergipe na dobra de 1589, mata e aprisiona vários índios na chamada “guerra justa” que fez vencer o chefe maior das tribos em Sergipe, o Cacique Serigy. A Colonização das terras de Sergipe acontece de forma muita lenta. Especialmente a região do Baixo São Francisco onde a sonolência e a preguiça era reinante por força do ócio.

Gente de todo lugar vinha para o recém Sergipe D´El Rey, que à época era lugar sem lei, terra de ninguém, onde aventureiros vinham tentar a sorte. Nesse interim, entre a conquista de Sergipe e o tempo que a Bahia levou para instalar algumas povoações em Sergipe, Neópolis, que ainda não tinha denominação, Maurício de Nassau teve espaço para construir o chamado forte Keer de Koe e ali chegou à residir. Já em 1679, com o lugar livre dos holandeses, as terras foram doadas a Antônio de Brito Castro e passa à ter seu primeiro nome: Vila Real do São Francisco. A continuidade da posse das terras se dá em face de que, as exigências da Coroa Portuguesa, na qual o donatário havia de fazer benfeitorias, não foi a cabo. Sabe-se então que, foi feita vistoria pela ouvidoria de Sergipe constatando que o donatário não cumpriu exatamente as disposições exigidas nas cláusulas de doação, vez que os prédios eram frágeis e cobertos de palha, não eram de alvenaria ou madeira e não resistiriam a ação do tempo. Tendo em vista a informação do ouvidor, o território da freguesia voltou ao patrimônio da coroa com a denominação de Vila Real do São Francisco. Em 1733 o termo de Villa Nova foi desmembrado do Santo Amaro das Brotas e elevado oficialmente a categoria de Vila e com a nova denominação Vila Nova D`el Rei. Em meados de 1817 perde quatro quintos do seu território para a criação da freguesia de Santo Antônio do Urubu de Baixo, atualmente a cidade de Propriá.

Propriá, século 19
Propriá, século 19

Como vemos, a História de Propriá é ligada a de Neópolis. Entender que para evoluir como principal cidade do Baixo São Francisco se deu graças a fatores como a chegada da implantação da Paróquia de Santo Antônio do Urubu de Baixo, em 1718. A posição privilegiada geograficamente, com porto de ótimo acesso, lagoas ricas em abundância de peixes, as várzeas que condicionavam o plantio de arroz e a visita de Dom Pedro II em 1859, foram elementos necessários para tornar o lugar promissor em termos de investimentos que se dá após a sua libertação de Neópolis. Sendo agora liberta por meio da Resolução do Imperador, possui câmara, um intendente, pelourinho, mais de uma igreja católica, cadeia, escolas, ruas são abertas, construídas praças, chafarizes, casas de comércio se instalam, canoas de toldas, barcos e chatas, mulas e carroças trazem mercadorias para a cidade que logo passa a ser conhecida como a “meca do São Francisco”, devido ao seu comércio próspero. Anos depois, de tanto encanto e beleza, já com amplas casas de bangalô, avenidas abertas, vários lojas e fábricas de diversos segmentos, fica carinhosamente conhecida por “Princesinha do São Francisco”. Com a chegada de meados do século 20, por volta de 1940, ápice da Guerra  Mundial, estabelece-se enquanto segunda maior economia do Estado de Sergipe. Não obstante, um dos fatores que atrapalham seu desenvolvimento, são as cheias do Opará, o atual rio São Francisco que, a cada ciclo de seis meses, trazia prejuízos imensuráveis para os comerciantes que se estabeleceram à Avenida Tavares de Lira, na antiga lagoa de João Bahia que foi aterrada para ali ser a praça comercial do município que recebia milhares de pessoas de todas as regiões: Alagoas, Bahia, Pernambuco e Sergipe. Com a chegada de 1960 vários comerciantes começas a sair de Propriá inda à região Sul de Sergipe e para outros Estado. O efeito da Emancipação, em ver um município próspero, se agrava com a diminuição do plantio do arroz, pelo consequente fechamento das fábricas que beneficiavam os grãos e 1975, seu declínio já é sentido por todos que atribuem, erroneamente, à chegada da construção da Ponte da Integração Nacional que liga os Estados de Alagoas e Sergipe.

Dom Pedro II
Dom Pedro II

A Emancipação Política de Propriá trouxe desenvolvimento intelectual e motor para região. Seu declínio econômico está ligado à causas naturais e politico-administrativos, como a transferência do escritório da Codevasf para a capital do Estado, Aracaju. Está ligada a falta de um olhar profundo sobre essa parte de Sergipe que continua sonolenta em seu desenvolvimento pelos mesmos motivos da época de 1600 quando o ócio era prática comum tornando homens em pedintes ou vassalos de coronéis e chefes políticos daquele Brasil colonial. Todo o Baixo São Francisco é carente de novos atores compromissados com seu desenvolvimento e não na continuidade do estado de miséria em que vive sendo hoje chamado de “maior bolsão de miséria de Sergipe”. Na verdade, esse território, em toda sua existência histórica, não recebe ações fortes e eficazes do Governo Federais ou Estadual. O máximo que teve foi a tentativa da instalação do Platô de Neópolis, criação de camarão na atualidade e fracasso de uma rizicultura que sobrevive cambaleando das pernas em relação ao que já foi.

De Dom Pedro II, século 19, para os dias atuais, vários municípios foram criados no Baixo São Francisco – Emancipados – parecendo que esse pleito foi mais para atender à visão da criação de curais políticos que para estabelecer sociedades desenvolvidas com qualidade de vida para seu povo.

Essa História precisa ser recontada, preparar novos atores para não manter o curso em que o município vai é o novo diferencial; chamamento à reflexão com debates, promover as escolas como espaços de interação, discussão e de produção de material intelectual; produção de livros, documentários, palestras e outros mecanismos que promovam resultados envolvendo a sociedade; exigir das autoridades compromisso com a terra e seu povo.

A Emancipação Política de Propriá é uma História longa para ser contada rebuscando no baú do passado as razões que continua se alinhando com as atuais sob o olhar de um longo debate para não continuar sendo a região subdesenvolvida da época de Dom Pedro II e hoje chamada de maior bolsão de miséria do Estado de Sergipe.

Por Adeval Marques
Graduado em História

Fontes históricas:
Maria Thetis Nunes, Luiz Antônio Barreto, Luiz Moty, Armindo Guaraná, Wikipédia

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