Leitor escreve: “Dor e solidão em Canindé de São Francisco”

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Abertura por Adeval Marques – Aos poucos novas vozes começam a somar com outras que já denunciavam a situação do município mais rico do Estado de Sergipe em termos de proporção. Para quem tem sensibilidade, a dor de ver a miséria se alastrar, provoca grande dor na alma. Em Canindé de São Francisco, o sofrimento dos mais humildes, principalmente idosos e crianças, relatado por quem vive o dia a dia deles, atendendo, gera o tipo de relato abaixo, enviado ao site com pedido de sigilo do autor.

“Dor e solidão em Canindé de São Francisco”

Um silêncio quase que absoluto paira sobre o sertão. O pouco que se pode ouvir é a areia sendo levada pela ventania que insiste em aliviar a alta temperatura, diante de um sol escaldante arrodeado pelo azul celeste. O terreno branco, cercado por uma vegetação seca e sem sinal de solo fértil, abriga humildes casebres distantes um dos outros, obrigando longas caminhadas para os nativos que querem chegar aos seus destinos. Nesse local, sobrevivem homens, mulheres, crianças, jovens, idosos e animais desnutridos. Isolados, relembram personagens literários, como os que ilustram o livro “Os Sertões”, de Euclides da Cunha. Não sabem o que é lazer e muito menos conforto. Estão distantes de tudo, inclusive, de direitos básicos da humanidade. Passam fome, dormem no chão. Choram, se desesperam, mas não se atrevem a pegar no que é alheio. É a pobreza estampada nos rostos de sertanejados calejados pelo sofrimento e insuficiência de políticas públicas que possam aliviar as angústias, por mais que alguns atribuam a pobreza à vontade de Deus. No entanto, não perdem a fé divina em busca de um socorro. E não se trata de um panorama de muitos anos atrás. É a falta do pão de cada dia em pleno ano de 2019.

O silêncio é quebrado com o som de uma estaca cavando o solo duro. No lugar de janelas, pedaços de retalhos velhos foram improvisados para conter o sol e a chuva, enquanto colchões estragados pelo tempo servem como a única opção de “conforto” para o trabalhador e sua família.Essa última conta com panelas sucateadas, queimadas pelo fogo a lenha, e vazias. Praticamente não há o que comer. E ainda se houvesse, não seria suficiente para o agricultor e seus familiares. “Posso até deixar de comer para dar a minha netinha. Antes eu passar fome do que ela’’. Junto com o agricultor, sobrevivem no humilde casebre a esposa, duas filhas, o genro e a neta recém-nascida. O choro da pequena também quebra o silêncio do terreno. “É choro de fome, moço! Ela só tomou um pouco de leite que sobrou de uma doação”, diz a mãe da garota, que não sabe ao certo a idade da pequena, mas arrisca uns dez meses. Na residência improvisada, a família tenta resistir à fome e falta de água. Uns chegam a dormir no chão de terra quando não há espaço para todos se deitarem nos colchões desgastados, mas o quarto feito pelo pai com engenharia precária, porém com carinho, fica reservado para acomodação da menor e seus pais. Trata-se de um cômodo que aos olhos de muita gente jamais teria condições de abrigar uma criança que veio ao mundo meses atrás. Entretanto, não há solução palpável. O único fio de esperança se faz presente nas orações do patriarca da família. “Fé em Deus eu tenho muita, meu irmão. Quando tem comida, ‘nós come’ (sic), mas quando não tem, o jeito é esperar no Pai. A terra não dá plantação por causa da seca e eu não tenho criação de bicho para matar e comer. O jeito é contar com a boa fé dos amigos. A fome existe e está aqui no sertão. Infelizmente, não tenho recurso para reformar minha casinha. A situação é essa que você está vendo”.

Assim como qualquer pai de família, o agricultor guarda no peito o dever e a obrigação de cuidar dos parentes. Porém, a realidade castigada pela miséria o deixa de mãos atadas. É preciso ter muita calma e não se desesperar ao ouvir o choro fino da neta e da filha mais nova, de um ano, quando não há qualquer opção de comida. O que se pode fazer, segundo o trabalhador, é tentar a sorte de arranjar serviço nas terras dos produtores que, graças à tecnologia irrigatória e aos investimentos financeiros, ainda conseguem tirar do solo alguns frutos. “Um dia de trabalho rende, pelo menos, uns 30 contos. Se eu consigo isso, trago alguma coisa pra casa para socorrer a vontade de comer das meninas”, explica o trabalhador. Mas a falta de trabalho é mais comum do que a existência de ocupação. E é no período ocioso que seu ele tenta não cair nos braços da tristeza e nas amarras da vergonha por não ter como suprir a necessidade dos familiares. Cabe a ele, então, pedir um pouco de comida aos moradores das comunidades vizinhas ao seu casebre, mesmo que isso custe longas caminhadas para amenizar a fome de quem não tem uma alimentação regular. Na ausência de qualquer socorro, falta também o pão de cada dia.

Primi Agminis Spe

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