“O primeiro dever do historiador é não trair a verdade, não calar a verdade, não ser suspeito de parcialidades ou rancores.” – Marco Túlio Cícero

Historiadores insistem em elencar como fundamentos importantes para a conquista de Sergipe as justificativas apontada à época, tais como: economia, a procura por minérios, abertura de rotas terrestres, expulsão dos franceses do território do Sãofranciscano, criação de rebanhos e povoamento, a catequese dos índios pelos jesuítas e outros fatores pelos portugueses que se autoproclamavam donos do Brasil, a terra de Pindorama. Entretanto, havia ódio e vingança por trás do massacre dos índios e a conquista da terra por Cristóvão de Barros o “matador de índios”.

Sobre a “conquista” de Sergipe, existem aspectos latentes e análogos que precisam ser reverberados à luz de uma melhor compreensão em determinados fatos por justiça e dever do ofício de Historiador. Se para o capitão Cristóvão de Barros houve deleite, malgrado foi para Serigy e sua gente. Entretanto, ao final, o que de fato restou ao capitão?

A História é a ciência que registra os fatos. O julgamento dos acontecimentos é por conta dos homens. Por razões assim é que existem linhas ou vertentes de pensamentos divergentes pelos historiadores. Contudo, as novas pesquisas sempre irão propor outras visões acerca dos acontecimentos que ditaram o rumo da vida, como no caso da conquista de Sergipe: a chamada “guerra justa”. Tal acontecimento histórico vem por colocar Cristóvão de Barros como herói por alguns estudiosos do assunto na época e até hoje repetido. Quem usurpa pode ser considerado herói?

Na presente abordagem é colocada como análise o fato que envolve o pai de Cristóvão de Barros, Manoel Cardoso de Barros, fidalgo português. Ele foi vítima do fatídico naufrágio e depois comido pelos índios da etnia caetés em ritual de canibalismo. A memória de seu pai precisava ser reparada, vingada e servia de combustível de ódio ao jovem Capitão para com os gentios locais, especialmente os de linhagem caetés, ou canibais, como assim os chamava.

É 1556, século 16 (XVI). Dom Pero Fernandes Sardinha, primeiro Bispo do Brasil, residente na Bahia, e Manoel Cardoso de Barros, pai do Capitão Cristóvão de Barros, estão em viagem à Portugal. Historiadores defendem que, a julgar por acontecimentos da época, o Bispo era um sujeito de gênio impetuoso e estava com as relações estremecidas junto ao Governador-geral da Bahia, Duarte da Costa. Fernandes Sardinha não admitia a nudez dos indígenas locais impondo-lhes mudanças de costumes. Era preciso aculturá-los, por assim dizer. Para aprofundar ainda mais a cólera do Bispo, o filho de Duarte da Costa, Álvaro da Costa, era acusado de manter hábitos escusos em manter relações sexuais com as belas índias. O Bispo protestava e nada se resolvia. Foi então que sardinha manifestou levar ao conhecimento púbico por meio dos sermões e assim agravando o estado de má relação entre ele e Duarte da Costa. Portugal precisava saber e o Governador-geral Duarte da Costa e seu filho denunciados ao rei, assim agiu Sardinha.

De Salvador zarpam então, no dia 16 de julho de 1556, a bordo da nau Nossa Senhora da Ajuda rumo à Portugal. Juntamente com Sardinha iam alguns fidalgos e também Manoel Cardoso de Barros. O número de tripulantes era de 109 almas. Navegando pela costa, naquele encontro do rio Cururipe com o Oceano Atlântico, de passagem na volumosa bacia hidrográfica do rio São Francisco, ou o Opará, como assim o chamavam os índios caetés, a embarcação portuguesa encalhou vindo a naufragar em águas rasas. A habilidade dos marujos fez com que a tripulação conseguisse sair com vida à costa. Entretanto, ali mesmo, escondido nas matas, os índios caetés estavam à espreita. Tão logo os tripulantes chegam em terra, se veem prisioneiros. Nesse estado de pânico, foram então mortos um a um com golpes de tacapes na cabeça e sem piedade pelos caetés, pois eram prisioneiros e também odiados deles que viam nos intrusos fortes ameaças ao seu mundo. Uma vez sem vida, foram então levados à fogueira, assados e comidos em ritual de canibalismo. Essa prática é comum entre os índios caetés e tupinambás, pois assim faz parte da sua cultura e todos os prisioneiros de guerra ou inimigos capturados tinha esse fim. Das 109 almas da caravela Nossa Senhora da Ajuda, apenas três ficaram vivos, sendo dois índios e um negro.

Esse fato marcou a História do Brasil como acontecimento inusitado, verdadeiramente assombroso, medonho e noticioso por toda Europa aonde as notícias chegavam vagarosamente ao ritmo dos ventos que impulsionavam caravelas na época das grandes navegações ou descobrimentos. Era chocante e inconcebível, para os “civilizados” que um Bispo da Santa Igreja e um fidalgo Português tivesse fim tão trágico. Era preciso dar uma resposta: vingança por fim. O fato também viria marcar e contribuir de forma indelével os rumos da história futura aos índios de Sergipe.

Com o horror do ocorrido, Portugal determinado então vingança e caça aos caetés aonde estivessem. Com medo os caetés e outras tribos deixassem Alagoas e se aventurassem nas matas e sertões. Nessa fuga foram mortos e escravizados a esmo de forma insana pelos portugueses. Muitos índios eram considerados caetés e perseguidos sem nem lhes dar a chance de se justificar. Seis anos depois a ordem é revogada em Portugal.

Passados 33 anos da morte de Manoel Cardoso de Barros e Sardinha, na foz do São Francisco, entra em cena seu filho, Cristóvão de Barros, já enquanto capitão do Exercito português na Bahia e cargo de Provedor-Mor da fazenda. Homem de têmpora forte, naqueles idos já possuía a fama de matador de índios. Há anos que a Bahia precisava abrir rota para o Estado de Pernambuco e Sergipe fica entre os dois estados, com índios canibais e amigos dos franceses. Conhecidos pela ferocidade, pairava sob Serigy a fama de grande líder tribal que conseguia reunir várias tribos sob suas ordens. Com habilidade política, ele mantinha relações estreitas com os franceses enquanto detestava os portugueses. Com os franceses ele negociava facões, armas, tecidos e outras novidades em troca do Pau-brasil. Portugal precisava agir. Era preciso conquistar Sergipe e derrotar Serigy.

Vivia em Cristóvão de Barros a imagem inseparável de seu pai sendo morto de forma brutal e depois comido na fogueira por àquela gente da barbárie. Essa lembrança atormentava seus dias. Historiadores defendem que ele era filho bastardo de Manoel Cardoso de Barros, contudo, nutria sentimento de filho e grande respeito ao pai. Seu ódio e vingança triam desfecho.

A convocação para Cristóvão de Barros chefiasse a empresa rumo à conquista de Sergipe era a oportunidade de vingança. Com a conquista ele teria consigo o espólio, fundaria uma cidade e dividiria as terras com os seus. Ele já havia, de antemão, visado seu quinhão. Com total controle geográfico da região, lhe apetitava as terras que começam no Cotinguiba até a serra do Xingó, no hoje Canindé de São Francisco. Toda mata do Opará, as lagoas, vales férteis, minérios e demais riquezas que se suponha ali existir seriam suas. Ele enfrentaria os caciques Aperipê, Japaratuba , Pacatuba, Sirir e Serigy, o mais temido e resistente por 30 anos de tentativas na conquista de Sergipe.

Da Bahia uma imensa artilharia de guerra foi montada com cinco mil soldados. Eles vieram pelas matas, cortando e abrindo caminho. Cristóvão de Barros é o Provedor-Mor da fazenda e recebe financiamentos da coroa portuguesa sob o reinado de Felipe II. Ele aporta em Sergipe de navio. Destrói a aldeia do Cacique Bahepeba, em seguida marcha ao encontro de Aperipê, chamando-o de canibal e o matam. No curso da luta que durou meses, consegue a rendição dos caciques Pacatuba e seu irmão, o Cacique Japaratuba e em seguida Pindhaíba. Algumas léguas adiante enfrentar Serigy, o último foco de resistência e encontra ao seu lado, reforçando o grande líder, o destemido Cacique Siriri. Tenta negociar com Serigy e esse nega submissão e amizade. É então que, no enfrentamento, aprisiona e envia Serigy para o calabouço na Bahia. Foi um terror em vida aos índios. Fez valer seu ódio e sua vingança. Achasse “dono de Sergipe”.

Já senhor das terras de Sergipe, desde Santo Antônio do Aracaju até o riacho Tamanduá, fez doação distribuindo parte do território aos seus. Fundou São Cristóvão e quatro engenhos como referências de economia e domínio Português. Ao saber que seu cargo, o de Provedor-Mor da Fazenda, havia sido ocupado por Rodrigo Sora, parte para reclamar a Portugal o motivo deixando a já capitânia de Sergipe sem Governo, sem dono e por tanto levando consigo a lembrança da praga de Serigy: “A terra não terá dono”. Nunca mais regressa.

Na sua ida triste, deixa tudo que conquistou e seu filho, Manoel Cristóvão de Barros, como herdeiro da extensa faixa de terra que vai desde o Cotinguiba, passa por todo Baixo São Francisco até o riacho de Xingó, no Canindé. Manoel também fracassa a empresa e segue para Bahia onde, anos depois vem a falecer e sua esposa, dona Guiomar de Barros, deixa como herdeira das terras a filha que, após também sua morte, Pedro de Abreu e Lima, seu esposo, agora último herdeiro, cede as terras aos carmelitas e jesuítas que catequisavam os índios. O último descendente dos Barro, o filho de Pedro de Abreu e Lima, neto de Cristóvão de Barros, vai morar ao pé do Morro do Urubu, no Baixo São Francisco tornando-se mero agricultor e criador de rebanhos. Tudo que lhes pertenciam está dividido em várias mãos: a terra não teve dono.

A “conquista de Sergipe” faz 430 anos em 2019. Hoje existe o Memorial ao Cacique Serigy, Tupinambá e líder dos Karapotó, da aldeia Aracaju, cujo seu nome originou o do Estado de Sergipe foi aprovado pela Comissão de Educação e Cultura para compor o “Livro de Aço” ou “Livro dos Heróis da Pátria”, está localizado um memorial fúnebre do Panteão da Pátria e da Liberdade Tancredo Neves, na Praça os Três Poderes.

“A História de um povo precisa ser preservada como patrimônio imaterial e bem cultural. Não mantê-la é crime contra a história e humanidade”.

Por Adeval Marque
Graduado em História

Confira a Parte 1/2:
www.proprianews.com.br/portal/index.php/2019/03/04/tristeza-nas-matas-do-opara-a-morte-de-serigy-e-sua-eterna-maldicao-parte-1-2/

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