“A história quando verdadeira, jamais será apagada, pois é História e como História viverá.”

Na cultura oriental japonesa o ato de retirar a vida era algo reservado aos bravos da casta dos guerreiros samurais: o sepukku ou harakiri. O suicídio/seppuku era acompanhado de ritual cuja essência previa reparar um erro, uma traição, desonra, incompetência ou “protesto” por meio de dois golpes de faca no ventre retirando a vida. O ultimo foi realizado no 25 de novembro de 1970 por Yukio Mishima que foi auxiliado por dois companheiros. Ele havia sido indicado para três Prêmios Nobel de literatura.

No Brasil não existe a cultura do o ato de suicídio, ou seja, não faz parte da nossa formação. em por parte dos índios e nem pelos exploradores quando aqui chegaram. Entretanto, nos últimos anos, têm crescido assustadoramente registrando a marca de 106.374 em 2018. No mundo são 800 mil por ano e a cada 40 segundos acontece um suicídio. São dados da OMS. Por não ter um plano de ação, o Brasil conta com o “Setembro Amarelo”, data mundial de conscientização sobre o problema com campanhas. Existe atraso nessa política.

No histórico dos estudos os casos são análogos aos problemas sintomáticos. São eles: tristeza, preocupação excessiva, pressão, a solidão geradora da depressão. Os estudos completam ainda afirmando que muitos nesses estágios só queriam “ter a oportunidade de serem ouvidos e compartilhar suas angústias.” Solitários em suas dores, sem ajuda, acabam por cometer o ato final retirando a vida como forma de protesto. Se na cultura oriental japonesa é motivo de honra e bravura, aqui entre nós prevalece certa discriminação e incompreensão, ao invés de tentar entender os motivos o que percebe-se são julgamentos antecipados e até de valores.

“Seu Said Gitz era bom. Foi sua maneira de gritar para ser ouvido.” Não aproveitou o momento para fazer algo insano aos que estavam ali presentes naquele “Simpósio Nacional sobre Gás em Sergipe”, ocorrido em 04 de julho de 2019. Poderia, se assim quisesse, fazer grande mau, mas, não possuía o gene do mau. Só fez mal a si mesmo.

Nós poderíamos ter hoje outro cenário igual ao que vem acontecendo nos Estados Unidos e aqui no Brasil quando invasões nas escolas e universidades mataram tantos inocentes ou no exemplo dos homens bombas mundo a fora. “Seu Said Gitz era bom. Foi sua maneira de gritar para ser ouvido.” afirmou um velho funcionário de Said que hoje reside em São Paulo ao saber da notícia e chorar. Quantos mais terão que gritar para serem ouvidos?

Em 1989 um jovem do interior chegava à Aracaju cheio de sonhos. Um teste para trabalhar na área de informática da Cerâmica Escurial foi feito e a entrevista como próprio Said. Brincalhão e risonho foi a impressão deixadas por Said ao jovem. Trabalhador, ele próprio se misturava entre as máquinas da fábrica dando ordens ou inspecionando aqui e ali. Said tinha grandes projetos e estava feliz, vários funcionários dependiam de seu investimento e espírito empreendedor. 20 anos depois a situação muda drasticamente sem que haja promoção de reformas importantes como na área de economia, especialmente na carga tributária. Entretanto, a cada época da política os discursos e bravatas, promessas e mentiras, são os melhores possíveis no campo das “resoluções.” Um grande time de marketing, escritores e jornalistas entram em campo para fundir as promessas. Eis ai a mentira que Said referiu-se ao dizer que o Governador Belivaldo Chagas mentiu […].

Distante de querer incriminar quem seja pelo suicídio de Said, é importante dizer que a sociedade espera em seus representantes a tomada de atitudes para mudar a rota desumana que o País está indo. Em Sergipe existe a mesma promessa há décadas. Carga tributária absurda torna falências de empresas que muito contribuem ou contribuíram para o desenvolvimento do Estado em realidade. Por conseguinte, o desemprego e suicídios. No País são mais de 14 milhões de brasileiros, pais de famílias em sua maioria, desempregados. Em Sergipe 160 mil. Um jovem hoje se forma e não existem campos de trabalhos sendo a taxa maior na faixa etária dos 18 aos 20 anos. Eis ai a mentira da geração de emprego. Eis ai a solidão, as dores e as depressões geradas pelas promessas dos nossos políticos e muitos deles “incapazes para o exercício do cargo.” Eis ai uma das dores de “Seu Said.” Consumimos e produzimos mentiras todos os dias ceifando vidas. Quem admitirá?

Sergipe precisa promover desenvolvimento. É um Estado tão pequeno. Deveria ser modelo em diversas áreas. Há regiões tornando-se “Bolsão de Miséria”, como o Baixo São Francisco onde o Estado está de costas há décadas. A falta de perspectivas do Estado “mata” sonhos, esperanças, alegrias e vidas a cada dia que passa. São tantas formas de mortes e “suicídios” que não queremos reconhecer. Isso também nos torna mentirosos, egoístas, mesquinhos e promotores de suicidas. “Seu Said Gitz era bom. Foi sua maneira de gritar para ser ouvido.”

Said Gitz era bem sucedido, empreendedor e com patrimônio ativo em milhões. Segundo relatos de amigos empresários, estava com praticamente uma fábrica pronta para ser implantada. Poderia largar tudo e voltar para sua terra, no Rio Grande do Sul, mas, sabia que precisava cumprir com suas responsabilidades. Ao retirar sua vida, em protesto, ele deixa uma grande reflexão sobre nossos dias: que precisamos ouvir mais e prometermos menos.

Se fosse protesto político acredita-se que teria deixado uma carta ou aproveitar o momento, pegar o microfone, já que estava armado, e fazer um discurso incriminando quem desejasse tornar ou manchar para sempre o Governador e depois suicidar-se, o que seria pior, mas, não o fez! “Seu Said Gitz era bom. Foi sua maneira de gritar para ser ouvido.”

No Japão, tão culturalmente diferente do Brasil e em especial de Sergipe, Yukio Mishima, um homem com mais de 40 obras escritas, também queria ser ouvido. Por ser crítico ferrenho da degradação do Japão, lutou pela retomada dos valores de seu país. Foi sua forma de protesto e não ato político. Um dia antes do suicídio, disse ao seu biográfo: “A vida humana é finita, mas eu gostaria de viver para sempre.” Afirmou ainda que o Japão moderno era “feio, interessado apenas no dinheiro […]. Algo ainda tão presente em nosso dias quando o lucro está à frente do humano. Quantas coisas “feias” e quem não “gostaria de viver para sempre” e quão muitos “interessados apenas no dinheiro.”

Sadi Paulo Castiel Gitz foi vítima da maior doença do nosso século: a solidão. A repercussão do caso assustou, ascendeu a discussão, tira do conforto de forma humilhante os que exploram o Estado de Sergipe sangrando suas finanças, promovendo “filhos” agarrados nas tetas de uma “vaca magra” cambaleante que urge na esperança de um vindouro gás para ter oxigênio e quem sabe, fazendo poucas mudanças ao desenvolvimento, acabe por promover mais apadrinhados políticos sem colocar na Agenda que se morre e se mata de fome, de raiva, de sede e por suicídio todos os dias. Said lançou sobre o Estado uma mancha da qual nunca se libertará, pois, todas as vezes que o novo gás passar pelos dutos levará um pouco do sangue dele, sua memória, luta e um grito que ninguém conseguirá calar.

Distantes, mas tão próximos, Sadi Gitz e Mishina fazem parte da cultura dos suicídios dos protestos porque representando tantos que gritam e não são ouvidos em todas as partes do mundo. O País deixar de mentir. Precisa colocar no topo da Agenda as reformas importantes que são necessárias ao seu desenvolvimento e qualidade de vida do povo. É chegado um momento de reflexão colocando abaixo promessas que não possam ser cumpridas pelas esferas do Federal, Estado e Municípios e os representantes sejam mais humildes e voltem-se para o humano ou estarão e são os principais culpados por essa solidão que passamos com um futuro incerto sangrando por dentro e gritando sem sermos vistos. Menos mentira!

É por tantos motivos que Said Gitz e Yukio Mishina serão sempre lembrados toda vez que a História for contada. Digo: “A história quando verdadeira, jamais será apagada, pois é História e como História viverá.”

Que mancha escura sobre Sergipe.

Adeval Marques
Graduado em História
Escritor e Documentarista

SEM COMENTÁRIOS

Deixe uma resposta