Ele nasceu em Nossa Senhora das Dores, em 1911, mas era como se fosse um dos nossos. Chegou a Propriá em 1947 para fazer uma revolução. E a fez. Se algum dia for escrita a história completa da nossa cidade nos últimos cem anos, ela deverá, necessariamente, ser dividida em duas fases: antes e depois da chegada do Monsenhor José Curvello Soares, o nosso querido e inesquecível benfeitor Padre Soares. De temperamento irrequieto e de uma liderança indiscutível, o Padre Soares não se restringiu tão somente às suas atividades sacerdotais que, por sinal, exercia com a vocação, o fervor religioso e a diplomacia de um enviado pelo apóstolo Paulo. Ele mais além. Ao tempo em que ampliava a fé dos paroquianos no sentido do caminho da salvação eterna, ampliava, também, as oportunidades seculares, sobretudo para uma juventude sequiosa de realizar-se no plano existencial, para quem criou as duas principais instituições de ensino de nossa terra – o Ginásio Diocesano e a Escola Técnica de Comércio – de incomensuráveis serviços prestados a Propriá, a Sergipe e, sem exagero, ao Brasil, visto que por elas passou o honrado confrade e atual ministro do Supremo Tribunal Federal, o brilhante constitucionalista Carlos Ayres Britto, o popular Dr. Carlos Britto ou, para os propriaenses, Carlinhos Britto.

A verdade é que, até o inicio dos anos cinquenta, a cidade, apesar de considerada a mais importante do interior sergipano, contava apenas com o ensino primário. O curso ginasial e os seguintes, só para filhos dos mais abastados, que podiam envia-los para estudar em Aracaju e/ou em outras capitais. Aos menos afortunados, que somavam a grande maioria, restava o trabalho no comércio e nas atividades agropastoris, de baixa remuneração e com pouquíssimas chances de ascensão na escala social. Diagnosticando imediatamente essa situação, o Padre Soares mobilizou a comunidade, ao tempo em fez gestões junto às autoridades educacionais na capital visando à criação do ensino secundário em nossa cidade. Em pouco tempo conseguiu fundar um ginásio, chamando-o de Diocesano, já prevendo a futura criação dos bispado propriaense, também gigantesca obra de sua autoria.

Sem professores com formação profissional, pois naquela época não havia faculdade de educação e nem sequer de pedagogia no Estado, o Padre Soares valeu-se dos recursos humanos locais, convocando compulsoriamente todos aqueles que tinham condições intelectuais e técnicas para ensinar, indos buscá-los no Banco do Brasil, nas repartições federais e estaduais, na própria igreja Católica, além dos profissionais liberais e autodidatas. Com essa iniciativa, formou uma extraordinária seleção de professores, que fizeram história nos primórdios do ensino secundário propriaense, valendo aqui lembrar os nomes de Manuel Ferreira Rocha (Professor Ferreirinha), Leão Magno Brasil, Juarez Alves Costa, Antonio Fernando Campos, Cezário Siqueira, Berilo Sandes, Mercedes Amorim, Clélia Santa Rita, Auxiliadora Caldas, Lizete Torres, Maria Freitas, Margarida Nascimento, Xavier Monte, Vanice Sá, Padre Darci, Antonio Fernandes, Lises Campos, Padre Oswaldo e outros.

Inicialmente, o Ginásio Diocesano funcionou nas dependências do Grupo Escolar João Fernandes de Britto, transferindo-se, em 1957, para as suas novas instalações, num moderno e funcional prédio, de grandes proporções para a época, edificado exclusivamente para essa finalidade, vindo a se constituir numa das principais obras desse grande prelado na cidade. Disciplinador exigente, o Padre Soares, todas as noites, já que o curso era noturno, no seu velho automóvel, fabricado em 1937, popularmente conhecido como o carro do padre, guiado pelo próprio, comparecia ao ginásio, com o objetivo de verificar a presença de alunos e professores, adotando medidas punitivas para estudantes indisciplinados e bagunceiros. Normalmente o Padre Soares, com raríssimas exceções, conhecia a todos pelo nome, assim como sua procedência familiar. Certa ocasião, visitando determinada sala, em plena aula, indagou da professora se havia algum aluno se comportando mal. No ato, a mestra aponta para três alunos sentados nas últimas carteiras, sem declinar os nomes. O Padre se dirige até os três. Puxa a orelha do primeiro e afirma: – Este eu conheço. Olha para o segundo e também lhe dá um puxavante de orelha: – Este também eu conheço. Aproxima-se do terceiro, aplica-lhe um forte cascudo na ampla testa, perguntando: – Como é seu nome bicho feio? Olhando fixamente para o Padre, o estudante respondeu-lhe pronunciando, um sonoro e pausado BEEELO. Era Antonio Carlos Belo. Todos riram, inclusive o Padre. Menos Belo, é claro.

A outra importante edificação de iniciativa do Padre Soares foi a reforma da igreja Matriz, que consumiu boa parte das suas energias e do seu profícuo trabalho apostólico. Muito embora fosse lamentável o estado em que se encontrava o principal templo católico da cidade, no inicio houve certa reação de alguns setores da comunidade em bancar as obra face às elevadas despesas a serem efetuadas. Mas o Padre não se intimidou e foi em frente. Com a ajuda do Padroeiro Santo Antonio e de alguns paroquianos influentes, a exemplo do empresário Agnelo Torres, concebeu e executou inúmeras atividades objetivando arrecadar os recursos necessários para as obres. Além das doações “compulsórias” dos mais aquinhoados, uma importante fonte de receita eram as visitas que a imagem de santo Antonio, conduzida por pequenas e rotineiras procissões noturnas, fazias às residências dos fiéis, previamente preparadas para recebê-la. Tal preparação, normalmente feita com esmero, consistia em assentar a imagem do Padroeiro num patamar lindamente ornamentado com tecidos finos e cercado por bonitos arranjos florais de colorações diversas. Colocado na sala de visitas da casa anfitriã, Santo Antonio, durante os três dias seguintes, era visitado pelos vizinhos próximos, pelos convidados e amigos da família, que levavam seus donativos, em dinheiro, depositando-o num cofre de madeira situado no andor que transportava a imagem. Por alguns anos essas visitas santificadas foram realizadas, cobrindo boa parte das residências existentes e cumprindo com a finalidade de arrecadar os fundos indispensáveis para as obras em questão.

Também eram significativa fonte de recursos as quermesses eventualmente realizadas na Praça Fausto Cardoso, nas proximidades da Matriz, onde barracas eram erguidas destinadas à venda de iguarias típicas e peças artesanais da região. Nessas efemérides, cantores e artistas da terra se apresentavam, revelando vários talentos, como destaque para Zezinho, que cantava as músicas de Paulo Molin, principalmente o hit Olinda Cidade Eterna. Antonio Rocha, posteriormente destacado economista e professor universitário, Paulo (Roló) Rezende, Angélica, sobrinha do Padre e Liseaux Tavares também eram cantores afinados que fizeram brilhantes apresentações. Quando os artistas não estavam em cena, o serviço de alto-falantes funcionava como outra expressiva fonte de receita, vinda do pagamento de músicas solicitadas pelos ouvintes. Conta o jornalista Hugo Consta, propriaense ilustre, que, numa dessas quermesses, um rapaz apaixonado por uma tal Normélia, pagou para ouvir cem vezes seguidas o samba de igual nome, de muito sucesso na época, na voz do veterano cantor Roberto Silva. Após algumas repetições, as pessoas incomodadas, que não eram poucas, foram reclamar do abuso diretamente ao Padre Soares que, ao ouvi-las, perguntou-lhes: – Ele pagou? Sim, responderam-lhe – Então é para tocar as cem vezes – sentenciou, encerrando a conversa. E durante cinco horas, noite adentro, todos tiveram que ouvir a insuportável Normélia. Inclusive a própria. Teria ela gostado dessa bizarra declaração de amor?

Com bom preparo intelectual, o Padre Soares estimulava as atividades culturais da sua paróquia, tendo criado o jornal semanal A Defesa, que buscava informar à população sobre os fatos da semana e divulgar as noticias da Igreja, além de revelar vocacionados para o jornalismo e para as letras, de uma maneira geral. Foi na página literária de A Defesa que a população tomou conhecimento dos modernos e inspirados versos do poeta Carlos Alberto de Melo.

Logo depois de concluídas as obras da Matriz, que ficou belíssima, Sua Santidade o Papa João XXIII criou as dioceses de Propriá e Estância, nomeando bispo de Estância D. José Coutinho e, de Propriá, D. José Brandão de Castro, cujo episcopado marcou época na vida eclesiástica de Sergipe por suas ações corajosas em favor dos mais pobres.
Quanto ao Padre Soares, em minha opinião injustiçado pela Santa Sé por não tê-lo indicado como primeiro bispo de Propriá, pois que reunia as condições, merecimentos e contava com o total apoio dos propriaenses, foi, como um desassombrado Paladino de Cristo, curar almas e construir novos ginásios e novas igrejas em outras terras, para a glória dos homens e de Deus.

(*) Texto de Marcos Melo, publicado no livro Propriamente Falando, de sua autoria, pela Editora do Conde – 2003.

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