CRÔNICA: É MADRUGADA E CHOVE EM PROPRIÁ

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Acordei-me com o som de pinguinhos de água caindo no telhado. Era a chuva que chegava prenunciando uma noite de paz e pensei: É madrugada e chove em Propriá

Com meu lençol de retalhos, o rádio baixinho  e o travesseiro, aproveitei para apreciar aquela ópera de Deus.

Fiquei ouvindo atentamente quando a chuva começou a engrossar. De repente seus pingos deixaram de ser fininhos e já caiam das biqueiras fazendo zoada, correndo pelas ruas antigas da cidade, lavando os calçamentos da Tavares de Lira, descendo com pressa a ladeira de Maria Júlia,  batendo na testa das torres da igreja Catedral e do Rosário. É madrugada e chove em Propriá.

Deitado em minha cama eu a vi também quando  passou pela Avenida Arthur Melo,  pelo Bairro Remanso, passando pela na Rua da Linha, subiu pelo Viaduto pegando a Rua de Capela e daí para Rua do Sol, seguindo à Rua do Meio, depois a São João e Porfírio de Britto. Pensei: É madrugada e chove em Propriá.

Da Lagoa de Zeca vinha a brisa do Opará o cheiro de terra molhada. No Bairro Propriazinho, onde as casinhas são simples, ela molhou com bondade. No Bairro Poeira bateu o pó do caminho dos antigos tropeiros. Fiquei feliz, pois é madrugada e chove em Propriá.

A cantiga da chuva foi enfraquecendo aos poucos. Já então madrugadinha. Por onde  ela passou lavou ruas, telhados, praças, igrejas e cemitérios. Esteve nos telhados dos palacetes da cidade e também nos lares simples. Que coisa boa, é madrugada e chove em Propriá.

Foi vista nas tabernas e becos escuros da cidade. Em sua passagem tudo ficou em silêncio profundo. Nessa trajetória, serviu ao abastado e mendigos, Santos e profanos, aos de comportamento diversos, ela era de todos.. Deus é bondoso, pois é madrugada e chove em Propriá.

Despediu-se por fim da cidade prometendo voltar. Disse um canoeiro de canoa de tolda que ela seguia ao sertão, onde levaria esperança. Em sua saída deixou água forte descendo para a última Rua da cidade, a Rua da  Frente e daí para o Opará dos Caetés, Tabajaras e Tupinambás abastecendo a dor desse irmão que vai ao encontro do Mar. Já é dia nascendo, a madrugada se foi, serena no Opará. Se foi a madruga e chove em Propriá.

É dia de Santo Antônio na Urubu de Baixo. Som de pessoas nas ruas, carros que passam,  vai e vem, passarinhos cantando… O comércio abrindo suas portas. Nas várzeas cantam as marrecas e jaçanãs. A vida segue adiante e eu em minha insistência pensava: O dia começa e chove em Propriá.

Adeval Marques Fernandes
Graduado em História

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