Quando os portugueses chegaram ao Brasil, penetrando em todas as regiões, explorando suas riquezas naturais da terra chamada por Pindorama pelos índios, mataram a esmo, escravizando, estuprando seus habitantes, fazendo olhos lacrimejarem, molhando de sangue as matas, a terra e os animais e tudo que havia de lindo e bom, o Estado de Sergipe tinha um grande chefe: o Cacique Serigy. Ele se tornou lenda, deixando um legado de luta pela liberdade de seu povo e a posse das terras por seus verdadeiros donos.

Narrativa imaginária de um Historiador (Adeval Marques)

Naquele dia em que foi capturado, Serigy correu demais pela grande mata. Percorreu léguas inteiras vencendo com cansaço, suor e lágrimas a mata do Continguiba.  Nessa agonia, de uma guerra insana, sua  a boca amargava enquanto gritava ordens aos guerreiros para não enfraquecerem perante os invasores. Ele já havia chefiado e vencido guerras assim por mais de 30 anos. Sempre resistiu. Era o chefe absoluto de Sergipe.

Depois de muito correr, chegou então ao final de uma trilha na mata e subiu ao promontório ali perto. Vasculhou com ao longo e ouviu estampidos de arma por todos os cantos. Guerreiros caídos ao chão com o olhar mirando o céu… a terra colorida de vermelho, fumaça no ar, cinzas e fogo. Desolação por fim. Tudo que restava de sua aldeia na continguiba estava resumido à escombros, destruição e morte. O explorador europeu era o próprio demônio em pessoa.

A agonia e impotência de Serigy e seus guerreiros, vendo crianças, idosos e mulheres , odos crivados por balas dos bacamartes portuguesas, lhe causou imensa dor. De todos os chefes da história indígena de seu povo, à ele foi reservado a pior narrativa. Tragédia, dor, lágrimas, desespero, ódio. Tudo junto fazendo um turbilhão de emoção dentro desse grande índio que a História fala pouco, porém, ainda não apagado da memória. Serigy, que já estava cercado, preferiu se entregar a ver o resto de seu povo aniquilado.

O homem por trás dessa guerra era um jovem chamado de Cristóvão de Barros. Como Capitão da Coroa Portuguesa, ele foi designado para lutar contra os índios e anexar as terras para o Estado da Bahia. Ele entra em Sergipe na dobra de 1590. Não perdoa nada em sua frente nessa saga que marca a história do Estado. Não foi herói e sim um genocida e sanguinário motivado por vingança pessoal, como será dito na Parte 2/2 desse material.

A Guerra do Cotinguiba 

 – Se entregue Serigy! Salve o restante de sua tribo ou matarei todos que ainda restam! Gritou em fúria Cristóvão de Barros, acompanhado de mais de três mil homens sedentos de sangue e apontando armas para o grande líder Tupinambá que, com menos de mil guerreiros ao seu lado, munidos de arcos, lanças e flechas, resistiam ao seu lado.

– Você manchou a terra com o sangue do meu povo. Devo morrer com eles ou carregar essa dor para o resto da vida! Disse Serigy olhando para Cristóvão de Barros que portava uma armadura de metal, canhões e toda estrutura bélica da época em seu favor.

Eram quase três horas de uma tarde de Sol forte do mês de janeiro de 1590. Serigy era chefe absoluto de todo Sergipe e Cristóvão de Barros queria abrir caminho para o Rio São Francisco. Para esse intento, era isso era preciso aniquilar o chefe tribal que exercia grande influência e controle sobre as tribos. A distância entre os dois líderes era de aproximadamente 300 metros. A mata estava em silêncio total. Nada se mexia ali.

– Essa terra chama-se Brasil! Ela e tudo que nela existe pertence à Sua Magestade, Felipe II, Rei de Portugal e Espanha.  Ela é parte agora da Bahia de São Salvador! Você não quis o acordo. Vamos avançar sobre vocês e nada restará! Renda-se, Serigy! Você não têm escolha! Bradou o Capitão português.

Naquele momento os guerreiros queriam avançar e enfrentar os portugueses, mas, a responsabilidade de quem lidera se faz também nessas horas. Serigy sabia que colocaria todos na mesma vala comum: a morte. Se assim fosse, tudo que ele e seu povo era, estaria acabado e seu legado, sua História precisa ser contada. Em um ato de liderança ele olhou para cada guerreiro que aguardava suas ordens, levantou a mão direita que estava com a lança toda ensanguentada e disse:

O nome da nossa terra é Pindorama. Aqui é a terra das Palmeiras. De onde você vem só existe destruição, ódio e ganância. O rei não é dono dela. Ela é de Tupã e meu povo. É dos meus ancestrais que aqui viveram por toda vida. Quem é o rei para declarar ser dono dela? Deixo que levem meu corpo, mas, minha alma ficará para sempre aqui. Vocês não são bem vindos aqui. A terra não terá dono!

Serigy estava furioso e destemido, contudo, baixou a lança e se rendeu. Foi então que a mata e tudo que nela existe começou a falar. Araras, papagaios, todos os bichos e o vento que cochava as grandes copas das árvores, se arvoraram. Pindorama chorou por Serigy naquele momento. Toda mata do Opará silenciou e naquele momento único na História, tudo estava terminado. Era janeiro de 1589.

Ali mesmo Cristóvão amarrou Serigy e o aprisionou juntamente com os demais guerreiros. Dias depois os enviou para a Bahia onde Serigy, trancado em um calobouço, entrou em greve de fome e ali mesmo morreu como um animal, contudo afirmando, o que anos depois os historiadores chamaram de “A praga de Serigy”. A frase dita por ele vive até os dias de hoje:  “A terra não terá dono”. Serigy deixou a vida para entrar na História como herói. Já Cristóvão de Barros entrou como matador de índios, verdadeiro genocida.

Quando a notícia da morte do grande chefe Serigy chegou em Sergipe, espalhando-se rapidamente, houve muito choro e lamentação pelos naturais locais. Todos os grandes chefes indígenas, Aperipê, Surubim,  Pindaíba, Pacatuba e seu irmão, o cacique Japaratuba, Siriry e outros eram famosos, porém, Serigy o maior deles. A ironia é que o território passou a ser chamado de Terra de Seregipe ou Serigy e anos depois Sergipe, em derivação do nome do Cacique Tupinambá mais famoso da História de Sergipe.

Com a guerra travada contra os índios, a cidade de São Cristóvão foi fundada pelo próprio Capitão em sua homenagem Devoto de Santo Antônio, Cristóvão de Barros divide o Estado e fica com uma faixa de terra no Rio São Francisco doando-a ao seu filho, Manoel Cardoso de Barros. Nessa região da grande mata do Opará reside o chefe Pacatuba. Muitos foram ao seu encontro após a guerra sangrenta. Ele e Serigy eram da mesma linhagem ou tronco Tupinambá. Ali nasce o núcleo de catequese.

Ao deixar Sergipe como prisioneiro, Serigy partiu com grande dor. Enquanto viajava, seu olhar percorria as matas. Viu os pássaros que voavam livres, o frescor do vento que batia do Mar. Ele tinha a convicção, desde quando os exploradores aqui chegaram, que essa seria a ruína do seu povo. Conta-se que teve um sonho no qual via o mar cheio de sangue, navios ancorados na costa e o encontro com um homem branco português. Acordou os guerreiros no meio da noite e lhes contou o sonho. Dias depois o sonho se realizava com a chega da armada portuguesa na costa de Sergipe trazendo Cristóvão de Barros prenunciando o que Serigy pensava: o fim de seu povo e o mundo em que vivia.

Continua na Parte 2/2.

Por Adeval Marques
Graduado em História
Foto: Gravura

SEM COMENTÁRIOS

DEIXE UMA RESPOSTA