Uma história sobre a vida de algumas personagens que são discriminadas e esquecidas pelo modo de vida que levam, sem que muitos saibam das dores e beleza que guardavam dentro do íntimo.

Parte I

Era 1940. Uma canoa de tolda que vinha do sertão de Pão de Açúcar, Alagoas,  aportava na rampa do cais em Propriá. Eram quase quatro horas da manhã de um dia qualquer do mês de maio quando ela desembarcou. Naquela época dizem que o inverno era forte, chovia e fazia frio. Trazia em sua pequena mala, apenas dois vestidos e mais um que estava sob seu corpo ainda de quase adolescente. Um rosário de pedras verdes que sua mãe havia lhe dado de presente, um lençol branco com bordado nas pontas, uma foto dos pais, uma carta de apresentação, um copo, um prato, colheres, maquiagem simples guardadas para um casamento que nunca aconteceu e muita esperança.

O dia amanheceu. A chuva continuou e o centro da cidade virou uma algazarra só. Os homens que levavam água para as casas mais abastadas nos lombos de burro foi quem deu a informação da rua que ela procurava. “Fica lá perto dos pé de Oitizeiros”, disse para Maria do Rosário. Essa daí a cara não nega! É muié que vem pra ser muié-dama!”, comentaram em surdina. Ela seguiu passo por passo. Adiante e esperançosa por saber onde e quem lhe esperavam. A verdade é que não existia pessoa alguma. A vida não era fácil.

Depois de um dia de prura em busca do endereço e da pessoa que a carta dada por sua mãe, Dona Amélia do Rosário, indicava, ela cansou e parou. Ali, segundo as linhas da carta, residia uma comadre de sua mãe, por nome de Dalva de João Pedro, ambos eram ficção. A história foi inventada por sua mãe para criar uma ilusão de que alguém a esperava após ser expulsa de casa por seu pai, Narciso do Rosário, que não suportou saber que sua filha, Maria do Rosário, se “perdeu” antes do casamento e o sujeito, Avelino Caçador, partiu para São Paulo com promessa de um dia voltar. Isso já passava de um ano e meio. Sua mãe não teve como evitar a fúria do pai e a colocou no Trem, sozinha e ainda tão moça. Em prantos choraram e se desgarraram para o sempre deixando para trás a Vila de Altares, lá na zona da mata de Pernambuco. “Mulher que se perde na vida tem que ser rapariga!”, dizia seu com essa herança europeia dos colonizadores em contrassenso com o modo de ser dos nossos índios.

Não achou endereço mas sim a atenção de uma senhora que viu em Maria do Rosário uma mercadoria de boa qualidade. A prostituição naquela época era um bom negócio. Guilhermina se apresentou, sorriu, ofereceu abrigo após a história triste e comovente e então seguiram juntas para uma casa de alpendre que ficava próximo ao antigo Chafarix. Tomou banho, comeu, descansou e logo soube da proposta e soube, que igual a ela e a sua história, o cabaret estava cheio. Sozinha, sem ninguém e nada na vida, aceitou a proposta já dizendo que, “assim que ganhar um trocadinho, eu vou embora.” A vida tem essa face negra de transformar sonhos em esperança e ilusões. E foi assim que Maria do Rosário passou a chamar-se por Rosário Sertaneja, a menina das ancas grandes.

Luzes vermelhas, amarelas, azuis e verdes no salão regado a perfume. A primeira noite foi de tensão e medo, receio e dor. O primeiro cliente foi um médico, Dr. Luiz Morato, pagou bem, beijou e pediu o sexo que ela nunca havia feito: oral. Saiu do quarto correndo para a proteção de Guilhermina, a dona do cabarete que a fez voltar ou não teria onde ficar. Fez como tinha que ser, chorou e precisa receber mais dois para pagar as contas do acerto com a Dona Guilhermina. Começava a sentir já no primeiro dia como seria difícil a vida ali. Deitou e não dormiu, aliás, sonhava com sua cama, sua mãe, os irmãos e a doze zona da mata que deixou para trás. Senhor, alivia minha dor.”, rezou com o terço que a mãe lhe deu.

Joana, Darcy, Olga, Benta, Lulu, Camama, Zabé, Juvina, Amélia, Sorriso, Das Dores, Juvená Muié, Delícia, Sabará, Alagoana, Viçosa, Zefinha e Preta eram as demais sofridas que ela ali conheceu no dia seguinte ao se acordar. Todas estavam sentadas no quinta conversando e comendo alguma coisa. “Se acostume logo que a dor abranda”, disse Das Dores com sua voz forte. “Não baixe a cabeça para os homens, se não eles pisam você., Joana falou do lado da cerca e por ai foi criando intimidade. Era a experiência sendo passada como ensinamento dessa exploração da mulher desde que a humanidade surgiu. A mulher é mais forte que o homem porque vende seu corpo para sustentar quem colocou no mundo.

Na noite em que chegou na cidade um grande número de homens que vieram no Trem, desembarcava um jovem Engenheiro inglês por nome de Reynolds MacCartney. Culto, inteligente e meigo, procurou alguém apenas para beber e encontrou Rosário. Pagou toda noite para ter com ela a atenção. Bebeu seu próprio vinho e entrou entre as pernas de Rozário e suas ancas volumosas. Ele viera ao Brasil por decepção de sua amada que o decepcionara com o capelão de sua cidade, Brighton, no litoral da Inglaterra.  A mão do inglês trêmula passava por aquele corpo esculpido para o prazer e a doçura de ser mãe. Sua boca não parava de dizer: besame, besame, besame mucho. Até que seu membro vacilou para um lado deixando sair toda fúria e dor que estava contido naquele inglês de apenas 23 anos. Pela primeira vez, após quatro anos como puta, Rosário sentiu-se feliz e dormiu até o amanhecer. Nessa noite, ela sonhou com sua mãe lhe sorrindo dizendo: A fé em Deus é como uma navalha, minha filha”.

Estourava o fim da Segunda Guerra Mundial. “Estão dizendo que acabou a guerra e que vem muito homem estrangeiro para o Brasil.” Ela usava consigo uma navalha entre os seios, Estava experiente e também era conhecida por Rosário Sertaneja.

Continua na Parte II

Por Adeval Marques
Graduado em História
Gravura: Jannot Artist

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