Quando Propriá era ainda chamada de Urubu de Baixo, por ser uma pequena povoação que se destacava pela pujança de  suas várzeas férteis, a abundância de peixes e referência em religiosidade, o comércio local começava também a se fortalecer. Nesses idos de um Brasil Imperial, pequenos caminhos, ou veredas, surgiam no entorno dela facilitando o trânsito de viajantes pedestres, ou em montarias, os tropeiros e as boiadas que se dirigiam rumo à grande feira de secos e molhados e tantas mercadorias diversas. Todos os caminhos apontavam para a Urubu de Baixo que mais trade viria a chamar-se por Propriá e ganharia o título de “Princesinha do Baixo São Francisco” em função de sua beleza, comércio e desenvolvimento.

O Brasil de grandes matas bravias e inexploradas era ainda muito jovem, apenas 200 anos de descoberto. Naqueles idos de velho mundo predominam animais ferozes em grandes quantidades, índios e muitos caboclos. Eram eras ermas do século XVIII, início de 1700. O rio São Francisco – Opará – adentrava pelas lagoas que circundavam a Urubu de Baixo. No lado Norte da entrada da povoação destacava-se uma pequena vereda conhecida por “Caminhos dos Caboclos”, segundo a oralidade local pesquisada. Essa estrada iniciava na pequena povoação ribeirinha ligando-a ao sertão no limite de que é hoje a cidade de Porto da Folha. Era extensa já naqueles idos como um caminho que ramificava com outras rotas, porém, a Urubu de Baixo era a referência final. O “Caminho dos Caboclos” seguia margeando a beira do rio São Francisco, sempre com mataria bravia.

De acordo com uma pesquisa, o que se sabe e foi transmitido oralmente, é que, com o passar do tempo, o Caminho dos Caboclos foi tomada como uma grande estrada já trabalhada e assim se alargando. Acredita-se que o trânsito dos carros de bois, as boiadas e tropeiros com suas mercadorias, tenha sido um dos fatores para isso, já que naquela época o veículo automotor não existia. Ao lado da estrada dos caboclos, na região de Propriá, era de densa mata povoada por Aroeira, Craibeiras, Cedro, Bom Nome, Maçaranduba, moitas de Marmeleiros, Pau-de-arco, ramagens e cipós. Era a mata do Opará dos índios Caetés e Tupinambás, cujos relatos de caçadores antigos, falavam sobre as lendas dos caiporas, nêgos d´agua, lobisomens, curupiras, fogos-corredores e o boi tatá. Nossas lenda brasileiras.

No século XIV as lagoas de arroz eram a base da economia local. Com forte produção do grão, surgem as fábricas que os exportam para todos os lugares. Locais de plantação das pequenas mudas são selecionados ao lado da velha estrada fazendo surgir a “Estrada da Sementeira” e assim mudando o antigo nome. Nesse tempo  a Urubu de Baixo já havia mudado de nome para Propriá. O Lagamar aparece na história oral como sendo uma pequena fazenda ali próxima em função da grandeza de água e extensão da várzea para plantação do arroz. De tão imensa ela vai divisar com a atual cidade de Cedro de São João. A estrada Caminho dos Caboclos ou Sementeira, passa também a ser conhecida como “Estrada do Lagamar.” No século XXI é inaugurada como Rodovia Pedro de Medeiros Chaves.

Hoje, em pleno século 21, a estrada carcomida pelo tempo ainda leva as marcas dos solados dos pés, calçados, cascos de cavalos, rodas de carros de bois e os pneus dos veículos, o progresso. O Sol e a chuva a envelheceu e sua utilidade é agora mais do que nunca apreciada. Seu legado consiste em ser um dos patrimônios da História de Propriá. Foi um dos primeiros caminhos para as antigas fazendas e lugares possibilitando a origem de cidade como Amparo do São Francisco, Canhoba, Nossa Senhora de Lourdes, Itabi, Gararu, Gracho Cardoso, Feira Nova e a famosa Boca da Mata, hoje a cidade de Nossa Senhora da Glória, subindo sertão acima ou buscando o litoral da Cotinguiba, o irmão mais novo do Baixo São Francisco.

Testemunho ocular do tempo, ela registrou a construção de toda Propriá até os dias atuais. Por seu dorso as cargas de tijolos, mercadorias, gente e bichos entraram e saíram da então Santo Antônio do Urubu de Baixo. Contemplou o surgimento, progresso e declínio econômico dessa que continua sendo uma cidade-mãe de tantas outras ao redor.

Hoje, séculos depois, ela recebeu o título de Rota da Integração pelo então Governador Marcelo Déda. Seja “Caminhos dos Caboclos”,  “Sementeira” ou “Lagamar”, a velha estrada da antiga Urubu de Baixo registra nossa história e identidade cultura até os dias de hoje.

Por Adeval Marques
Graduado em História

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