Propriá e o cântico das marrecas e a lembrança da infância

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Me acordei cedinho hoje ao som dos cânticos das marrecas, que vem lá das várzeas de arroz. Me fizeram voltar no tempo quando ainda criança e nesse mesmo horário minha mãe já estava passando um café no coador fazendo o cheiro dar vontade de sair da cama.

Me vi ali, naquele passado, ao lado de todos os meus irmãos, minha mãe e a presença forte e simples do meu pai, sendo que ao fundo o cântico das marrecas em alvoroço era a música dominante do momento. Ao fundo o som dos cantos das marrecas.

Do lado de fora da rua alguém oferecia peixe em venda; uma carroça de burros passava rápida, alguém dava bom dia e o choro de uma criança se ouvia. Era a manhã, preparando mais um dia em Propriá. Ao fundo o som dos cânticos das marrecas.

Minha avó, a sertaneja Dionísia Marques, chega logo cedo informando que, lá no Opará, as canoas de toldas aportavam vindas do sertão e que ela precisava buscar uma encomenda de lá. Ao fundo o som dos cânticos das marrecas.

De repente Totozão, com sua voz grave informava o falecimento de alguém: “Pais, parentes e amigos, cumprem o doloroso dever de informar…” A vida precisava seguir. Ao fundo o som dos cânticos das marrecas.

Me levantava então da cama e dizia: Bença pai, bença mãe e bença vó. Recebia um Deus lhe abençoe e então sabia que meu dia estaria seguro. Ao fundo o som dos cânticos das marrecas.

Basta um simples som ou cheiro para nos levar de volta ao passado e um mundo de lembranças voltam em nossas mentes e sempre ao fundo o som dos cânticos das marrecas.

Hoje em dia meus irmãos todos vivos ainda e minha mãe continua no centro. Quanto ao meu pai e minha avó já nem existem mais, mas, o som dos cânticos das marrecas continua por aqui para nos lembrar de coisas boas de um passado que não volta jamais.

Não sei por quanto tempo Propriá vai ter o cântico desses nossos irmãos que são seres dados por Deus para embelezar essa cidade maravilhosa e querida de todos nós.

Propriá e suas lembranças ao som dos cânticos das marrecas.

Minha infância passou, mais eu continuo menino saudoso. Quem tiver sensibilidade pode ainda ouvir o cântico das marrecas da sua forma, dando luz e imaginação é tudo uma questão de sensibilidade.

Propriá(SE), 09 de maio de 2017.

Por Adeval Marques
Graduado em História/Unit

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