Escritora Propriaense da Academia de Literatura do Rio de Janeiro é referência em crônica sobre Machado de Assis

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A Propriaense Lúcia Nascimento de Oliveira é um dos  exemplos que dignificam o nome do Município de Propriá como fonte pessoas inteligentes que nos representam em todos os lugares por onde se façam presentes.

Residindo atualmente no Rio de Janeiro Lúcia tem diversas crônicas publicadas. Ela faz parte da Academia de Literatura do Rio de Janeiro (ABDL). Foi ainda premiada pela Academia Brasileira de Letras por ocasião de uma crônica que escreveu a respeito do escritor  Machado de Assis.

Hoje aposentada ela continua escrevendo de forma mais livre. Dona de um traço rico e dedicado, seus escritos em crônicas e poesias são dignos de leitura. A presente crônica sobre Machado de Assis foi premiada em concurso realizado pela Academia Brasileira de Letras e pelo jornal Folha Dirigida, publicada em livro,  no mês de setembro de 2008.

A IMPORTÂNCIA DE MACHADO DE ASSIS  UM SÉCULO DEPOIS DE SUA MORTE

Por Lúcia Nascimento de Oliveira

                 A obra de Machado de Assis continua atualizada e dinâmica, em todos os campos do sentimento e conhecimento humanos.  Um bruxo, como o denominaram, ele foi o mágico da palavra, com o dom de manobrá-la de todas as formas possíveis, inserindo propositalmente sentimentos e definições ambíguas, contraditórias, uma ironia lógica e ferina, penetrando no âmago de cada pensamento e emoção humana, como se, com a sua caneta, usasse   um bisturi dissecador do que há de  mais profundo no espírito humano.  Suas considerações a respeito da Sociedade, da vida, da conduta de cada ser, continuam atualíssimas, visto que o homem moderno ainda é  o mesmo, por baixo das máscaras com as quais se adorna perante aqueles que o cercam.

              Foi o seu trabalho que deu início ao Realismo no Brasil, estilo que veio de encontro aos ideais românticos que caracterizaram a segunda metade do século XIX.  A princípio, o autor ainda se prende a alguns valores românticos, na sua fase de amadurecimento.  A seguir, penetra nas idéias realistas, trazendo toda uma bagagem  de análise psicológica dos seus “heróis”, que nada mais são do que os habitantes do planeta, sempre enfatizando a sua terra natal – a cidade do Rio de Janeiro, com as suas belezas e misérias, ternura e ambição, pessimismo e ironia, maldade e dissimulação.  Sua obra investiga, denuncia, dialoga, aponta, critica, corrige.  Leva o leitor a dialogar com ele, mas deixando esse mesmo leitor perdido em dúvidas, misturando-se automaticamente com os personagens descritos, criando polêmicas.

               Em sua primeira fase, Machado presenteou-nos com Ressurreição, A mão e a luva, Helena e Iaiá Garcia.  Na segunda, ele nos traz as famosas e inesquecíveis “Memórias póstumas de Brás Cubas, Quincas Borba, entre outras. Seu trabalho transcorreu em  uma época de oposições culturais, de transformações nas idéias e na vida política e literária do mundo, um período de transição histórica, existencial e psicológica, lutas de classe e quebra de dogmas… como  ocorre nos dias atuais, daí, a sua obra ser considerada “não datada”, porque as críticas ainda se aplicam em nossa vida contemporânea.  Ele investigou o que era concreto e o que era abstrato, o lógico e o absurdo, tão absurdo a ponto de escrever  as memórias revolucionárias de um morto, desvinculando-se da própria vida, porque a morte propicia sinceridade total a Brás Cubas, o narrador pleno, descompromissado e irônico.

              Utilizou a técnica de manipular os personagens e o leitor, ironizando, debochando, desencadeando os enredos de maneira perfeita e eficaz.  Denotou a não profundidade das ações humanas: sem raízes, frívolas e rápidas – jogo de interesses e de ilusões passageiras.  Denunciou uma sociedade descarada, desonrada, desvalorizada e hipócrita.

              Na sua obra Dom Casmurro, apresenta o suposto adultério de uma morta e a síndrome do ciúme.  Essa história apresentou-se, a princípio e aparentemente, como a história de um amor traído, o despontar de um adultério – tema em epígrafe nos romances realistas – denunciado fora de tempo hábil, por um marido supostamente enganado, que só o declara muitos anos após a morte da suposta “adúltera”.  Durante décadas questionou-se a culpabilidade ou a inocência de Capitu, não se levando em conta as características neuróticas do ciúme e do ciumento, que enxerga além da realidade e através de sua própria e doentia visão.

             Os estudos mais aprofundados dessa obra, levando-se em conta o lado psicanalítico da questão, vêm apontar, dentro do romance, a psicótica síndrome do ciúme, ao tempo em que enfatizam o conflito interior de Bentinho, que jamais perdoou a si mesmo (e nem a Capitu) por não haver cumprido o sonho de sua mãe, de se tornar sacerdote, de não se haver conservado “homossexual”, no sentido em que a Psicanálise define essa condição.

            Identificando-se com a vontade materna, após haver realizado, sob as bênçãos do matrimônio, os seus próprios desejos com relação a Capitu, ele não a perdoa:  “cria” a sua traição, uma vez já saciado dos seus primeiros anseios, trazendo à tona a imagem do que deveria ter sido o seu objetivo primordial – o Seminário -, inconscientemente arrependido de não havê-lo seguido.

            Machado ironiza, em Dom Casmurro, tanto o Romantismo quanto o próprio Realismo, iniciado por ele no Brasil  com as Memórias Póstumas de Brás Cubas, pondo ainda em destaque a questão naturalista, deixando suspensa e sem provas concretas a pergunta indireta: “O resto é saber se a Capitu da praia da Glória já estava dentro da de Matacavalos”.

            O autor, na atualidade não mais um “defunto autor”, mas, infelizmente, um “autor defunto”, como ele próprio se intitula inversamente na obra Memórias Póstumas de Brás Cubas, deixou-nos como herança essa realidade das profundezas do ser humano, com suas características por vezes desumanas; analisou, também, a desagregação financeira e psicológica dos seus personagens, apontando para todas as crises pelas quais os homens transitam, dos mais remotos tempos, do Realismo e até os dias de hoje.  Não há como contestá-lo.  O seu mergulho na mente humana foi muito profundo e, por mais que o tempo passe, que a Ciência e a Tecnologia, junto às Doutrinas Psicológicas, apontem o homem como um ser capaz de chegar à perfeição, facilmente se pode encontrar tipos humanos semelhantes àqueles que o Bruxo do Cosme Velho caricaturou em sua obra magnífica.

Foto: Arquivo de Lúcia Nascimento Oliveira
Ao lado sua neta, Anna Carolina.

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