ENTRE O JORNALISMO DO POSSÍVEL E A CHANTAGEM

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AS VAIAS, OS VAIADOS E A BUSCA DA SENSATEZ

Por Luiz Eduardo Costa

A frase é de Nelson Rodrigues: “Brasileiro vaia até minuto de silêncio.”

Nelson Rodrigues foi o psicanalista do Brasil coletivo, e das suas individualidades. Não quis ouvir uma só palavra da Nação enorme e complexa que ele conseguiu deitar sobre o divã da sua curiosidade nada científica, apenas, essencialmente empírica. Nelson, um conservador renitente, foi ao mundo real que as teorias muitas vezes desprezam, e captou a alma brasileira, no que ela tem de mais peculiar, contraditório, e até mesmo errático.

A tendência do brasileiro para vaiar, é uma dessas peculiaridades do nosso espírito libertário, tendendo um pouco para o anarquismo, ou a descrença nas autoridades e nas instituições.

A vaia é gestada no silêncio das indignações individuais, fica recolhida na timidez ou na covardia de cada um, e um dia se liberta, quando outros indignados se encontram, e vencem a tibieza, e saem do espaço mofino onde reprimem a sua ânsia de liberdade.

 As vaias podem enfraquecer governantes, mas sempre fortalecem a democracia.

Virtuoso é o governante que, debaixo de vaia, reprime a vontade de apelar para a polícia, e fortalece a intenção de corrigir erros, e reencontrar-se com a vontade popular.

Tomara que ao ser finalmente localizado no canto do Maracanã onde se refugiava até ser obrigado pelo protocolo a declarar aberta a Olimpíada, Temer, ouvindo a vaia retumbante, não a tenha interpretado como se fosse, apenas, a raivosa manifestação de uma minoria indignada pela perda das regalias de um poder mal exercido.

As vaias, usadas como meio fácil e impactante de protesto, não devem ser desperdiçadas.

Por mais inspiração libertária que tenham as vaias, mesmo aquelas reconhecidamente espontâneas, terão de ter alguma dose de sensatez, para que produzam algum resultado prático.

Quando o ministro da Educação Mendonça Filho veio a Aracaju anunciar a liberação de dinheiro para o Hospital da UFS, lá estavam, para sonoramente vaiá-lo, chamá-lo de golpista, os servidores, professores, alunos da UFS, centrais sindicais e militantes.

A democracia se engalana quando todas as manifestações pacíficas, fazem parte da pedagogia politizante de uma sociedade livre.

Naquele dia, um marco que poderia delimitar o terreno da sensatez parece ter sido ultrapassado. Foi quando o professor Uchoa, reitor da UNIT, passando ao lado dos manifestantes foi vaiado, e vítima de ofensas raivosas.

O que teria feito Uchoa para sofrer o constrangimento?

Ter, saindo do anonimato de uma família pobre, construído, realizado, gerado milhares de empregos, formado três gerações de sergipanos, e aberto os portões da UNIT para sair ao encontro resolutivo dos problemas que afetam a nossa sociedade?

No mesmo instante em que nós brasileiros respondemos à afronta dos atletas americanos, bêbados e irresponsáveis, tornando clara a indignidade por eles cometida, e criamos até a vaia, aquela, sob forma da adjetivação que os perseguirá por muito tempo: “liers, liers, liers”, mentirosos, mentirosos, mentirosos, na nossa Aracaju, sempre altiva e independente para vaiar, e também  generosa e reconhecida para agradecer,  deturpamos o sentido de um protesto, e desqualificamos a vaia. Perdemos a oportunidade que sempre existe para vaiar com indignação, quando é preciso, e  também,  com sensatez, para aplaudir, sendo justo.

O PSC E OS ESTUPRADORES

O deputado Feliciano que é também pastor evangélico tornou-se famoso e ouvido com respeito por uma enorme platéia. Nele as pessoas passaram a enxergar o arauto valente, e limpo defensor dos princípios morais que sustentam a família.

Feliciano é o “inventor” da “cura gay” para homens e mulheres, uma coisa ridícula que ele até pretendeu transformar em lei.

Intolerante, odiento e amolecado, ele espalhou  preconceito e mentira, e conseguiu iludir muita gente, e por muito tempo.

Tentando livrar-se agora da acusação de ter cometido o hediondo crime de estupro, Feliciano já sofre o revés nas pesquisas que mostram a sua presunçosa candidatura a Prefeito de São Paulo, afundando em menos de três por cento.

Feliciano, sendo ou não comprovadamente estuprador, tem a ousadia hipócrita de apresentar-se como moralista, e Bolsonaro,  o furibundo que ameaça estuprar mulheres, são destacados e influentes personagens do PSC.

Será que no partido existe quem apóie o projeto de castração de condenados por crime de estupro?

 A LEI DOS BÊBADOS A LEI DOS SÓBRIOS

 A Lei da Ficha Limpa teria sido feita por bêbados ou sóbrios?

Este é o debate que se abre para o país depois que dois ministros do Supremo Tribunal Federal publicamente entraram numa rota de colisão.

Ministro Gilmar Mendes: “A lei parece ter sido feita por bêbados”.

Ministro Luiz Roberto Barroso: “A lei é sóbria”.

Nem uma coisa nem outra, diríamos nós.

O que a Nação apenas espera é que o STF em nenhum momento pecasse por carência de sobriedade ou por excesso dela.

RICARDO SAIU E VOLTOU MARIA

Há nove meses Ricardo Franco, primeiro suplente de senador, ocupa uma cadeira no Senado. Maria do Carmo licenciou-se para assumir uma Secretaria Municipal e dar uma mexida forte na política de inclusão social, ou seja, o assistencialismo que se costuma fazer na periferia da cidade, onde os pobres vivem sem nem saberem o que é mesmo qualidade de vida.

Num ano eleitoral a presença de Maria ao lado do marido candidato à reeleição, seria fundamental, porque ela conhece todos os becos e vielas onde mora a pobreza.

Nessa época de crise fica difícil até distribuir esmolas, quanto mais traçar uma política consistente, que gere efeitos positivos na mobilidade  urbana, na saúde, na educação.

Maria chegaria para influenciar também em todo o aparato administrativo do município, mas, teria constatado que a tarefa seria a essa altura superior à sua indiscutível capacidade de fazer e liderar.

Ricardo Franco, nessa passagem curta pelo Senado, construiu pontes de entendimento, superou as questões paroquiais, e tornou-se um autorizado interlocutor entre Aracaju e Brasília, um papel que deveria ser o foco principal da nossa diminuta bancada federal.

Ricardo foi atento ao interesse público, ficou acima das questiúnculas da politicagem.

Aproximou-se do governador Jackson Barreto, o atendeu em todas as solicitações feitas, dialogou com o reitor da UFS  Angelo Antonioli e o ajudou, entre outras coisas  a superar barreiras para viabilizar plenamente o campus do sertão em Nossa Senhora da Glória; despertou atenção para a urgência de parcerias público-privadas em Sergipe, iniciando-se com a concessão da BR-101, e, para isso, tornou-se um habitual freqüentador, até insistente, dos gabinetes de Ministérios e empresas estatais. Apresentou projetos, defendeu idéias, movimentou-se muito e serviu aos interesses de Sergipe.

Foi boa e salutar a passagem de Ricardo pelo Senado. Pena que tenha sido curta.

 A ESCOLA SEIXAS DÓRIA

Seixas Dória tinha um projeto ambicioso para a educação quando assumiu o governo em 1963. Chamou, para executar esse projeto, o professor e promotor público Luiz Rabelo Leite. Havia naquele tempo uma vergonhosa coceira que incomodava os brasileiros: o mal estar causado pelas cifras deprimentes, revelando um analfabetismo enorme. Sergipe estava entre os piores índices.  A coceira  do inconformismo se transformou em ações positivas como a aplicação do método  de alfabetização Paulo Freire. Em relação a esse método houve, num tempo de radicalização ideológica, grandes restrições. Ficou visível o viés ideológico embutido no Paulo Freire, mas, a sua eficácia para alcançar uma alfabetização rápida era inegável. Luiz Rabelo juntou esse método ao sistema de educação pelo rádio, uma iniciativa do Bispo Dom Távora, e começou a ser projetada a cifra a ser alcançada em quatro anos com uma redução drástica e virtuosa do analfabetismo. Mas ai veio o golpe de 64. E então, além da condenação ideológica, surgiu o velho preconceito das elites retrógradas que diziam: “Quando esse povo souber ler, vai ficar mais atrevido ainda”.

Seixas foi preso, Rabelo, e todos os que sonharam em acabar o analfabetismo. Processos arrastaram-se por vários anos, das Auditorias Militares às Varas da Justiça. No caso de muitos dos alfabetizadores, tudo terminou quando o promotor Público Eduardo Cabral Menezes, num corajoso ato, pediu a absolvição de todos.

Seixas não conseguiu realizar o ambicioso projeto. Quando Jackson tornou-se Prefeito de Aracaju, deu um impulso forte à educação, tendo na época, ao seu lado o mesmo secretário de hoje, o professor Jorge Carvalho, com quem, semana passada, entregou a uma comunidade pobre da periferia, a ampla e moderna escola Governador Seixas Dória. Uma homenagem.  Uma demonstração de que a luta continua.

O MAR DOCE QUE VIRA UM RIACHO

Getúlio Vargas foi inegavelmente o estadista que debruçou-se sobre os grandes problemas brasileiros, e planejou o desenvolvimento com a visão ampla dos que associam crescimento econômico à redução das desigualdades sociais.  Em 1942 o Ministro da Agricultura de Getúlio, Apolônio Sales, numa conferência feita no sinistro Departamento de Imprensa e Propaganda, o repugnante DIP, traçou as linhas gerais para o que na época se chamava ”colonização” do vale do rio São Francisco, uma idéia montada no sistema cooperativista. Foram esboçados também, os projetos das hidrelétricas de Paulo Afonso e Itaparica. Há  mais de setenta anos  Apolônio Sales já se referia, preocupado, à degradação do São Francisco, apontava as suas causas e preconizava ações para correção do leito , dragagens, inclusive nos afluentes, e preservação ambiental.

É triste constatar que nada disso teve continuidade.  Tudo se perdeu na incompetência ou desinteresse alarmantes que se revelam em empresas como a CODEVASF e a CHESF. Tudo se perdeu quando o nordeste foi castrado após a extinção da SUDENE; tudo se perdeu quando os políticos priorizaram os bolsos e esqueceram-se do nordeste, do Brasil, do povo brasileiro.

Agora o antigo mar de água doce que os índios e os primeiros navegadores tanto reverenciavam se vai transformando num filete de água, um riachinho.

Um exemplo: O governo de Sergipe está lutando para conseguir recursos, e construir em Telha, um canal onde as bombas da DESO poderão, com segurança, captar a água que é levada  até Aracaju.  Já se anuncia que a vazão será reduzida aos 700 metros cúbicos por segundo. Já foi superior a dois milhões.

BELIVALDO A CAMPANHA E O NOVO GRUPO DE EDIVAN

Belivaldo agora está no PMDB. Pode parecer estranho, porque ele sempre foi do mesmo grupo dos Valadares, e pai e filho são hoje do PSB. Houve, na sede do partido, um ato muito concorrido no qual Belivaldo assinou a filiação, e explicou o que estava fazendo. Percorreu com o olhar a platéia, os que estavam na mesa ao seu lado, e disse: “Estou aqui rodeado pelos  mesmos com os quais disputamos e vencemos quatro sucessivas eleições, estou aqui para dar sequência a um projeto de política com ética, para o qual fui trazido por fidelidade e amizade ao senador Valadares. Entendo que amizade e fidelidade andam juntas. Hoje,  sou vice governador ao lado de Jackson Barreto, e ele me confiou a Chefia da Casa Civil, cargo no qual não se coloca quem não merece a confiança do governador. O senador Valadares, seu filho, continuam sendo meus amigos, meus caros conterrâneos de Simão Dias, mas eles escolheram outros caminhos, submeteram-se a  um partido que considero retrógrado,  nocivo ao Brasil e a Sergipe, o PSC. Renderam-se ao empresário Edivan Amorim. Eu tenho, por princípio, respeitar e conviver com as pessoas, com as divergências, mas, devo em primeiro lugar ser fiel aos ensinamentos para a vida que recebi num lar humilde, entre eles, o de    honrar compromissos, a ter coerência nos atos pessoais, e eu os acrescentei às decisões políticas.

Belivaldo disse que no desenrolar dos próximos acontecimentos o senador Valadares poderia reconhecer o equivoco político que cometeu, e sentiria, então, a falta dos que nele votaram, ajudaram a elegê-lo sempre, quando ele, deixando a ala tradicional e conservadora da política, ganhou uma sobrevida elegendo-se mais duas vezes ao Senado.  Lembrou que assim, sempre estiveram juntos, inclusive na última eleição, quando Valadares Filho disputou sem sucesso a Prefeitura de Aracaju.

Não precisou de muito tempo para que fossem confirmadas as palavras de Belivaldo.

Na noite de sexta-feira Edvaldo Nogueira fazia um movimentado ato de inicio da sua campanha na avenida Barão de Maruim. Mais adiante, Valadares Filho na Hermes Fontes, também fazia o mesmo. Mas, apesar das luzes e do palanque vistoso, a platéia era reduzida , e entre os novos rostos dos políticos que agora o cercavam, existiam aqueles, até então para ele estranhos, que nem sabem onde fica o povo.

ENTRE O JORNALISMO DO POSSÍVEL E A CHANTAGEM

Já disse, com evidente exagero, o inigualável Millor Fernandes: “Jornalismo é oposição fora disso é armazém de secos e molhados”.

Realista, e cinicamente correto, definiu Assis Chateaubriand: “A liberdade de imprensa acaba onde começa o interesse do dono do jornal”.

Na época em que ele falou isso, a palavra imprensa era exclusivamente sinônimo  de jornal. A TV ainda um experimento incipiente e arriscado, o rádio o mais abrangente, todavia, jornal era mesmo o grande formador de opinião, ou melhor, o que circulava os “recados” da elite, e por isso tinha influencia preponderante no mundo político, e nas decisões.  Todos os grandes jornais dependiam  do poder público, dos financiamentos do Banco do Brasil, e faziam uma espécie de cartel da comunicação. O cartel foi rompido quando um ousado  Samuel Wainer criou, sob as benção de Getúlio, a Ultima Hora. Foi derrubando um a um os jornalões, fazendo uma comunicação descontraída, popular, sem editoriais sisudos e floreados. Depois de 64, todos se juntaram para exterminar a Ultima Hora. O jornal moderno e popular acabou.

Como se vê o terreno da comunicação não é assim aquela superfície limpa, muito menos virtuosa, que alguns chegam a imaginar. Esse jornalismo investigativo de hoje, que inventaram como o supra-sumo da arte de comunicar, é algo que deve ser visto com reservas, dentro daquela visão do velho Chateaubriand, sobre os “interesses do dono”.

É preciso que se relativize aquela imagem de idealismo e coragem que aureolava os velhos jornalistas, os que enfrentaram empastelamentos , prisões, atentados. Que se relativize, em função do tempo decorrido desde então. Agora, o capital sobranceiro se colocou bem acima de quaisquer outras considerações, inclusive éticas. Afinal, o que vem a ser mesmo ética, nesse nosso meio tão cercado e tão  susceptível às tentações?

Dizia Filipe, pai de Alexandre o Grande: “Não há muralha, por mais sólida que seja capaz de  resistir a um burro carregado de ouro”.

É sensatamente recomendável que não acreditemos plenamente nos ídolos da retidão, da pureza ética, do moralismo colocado no pedestal intocado da virtude absoluta. Valeria até perguntar, lembrando desses  ícones do moralismo: “Será que o Juiz Sérgio Moro faz, sem nada receber, essas freqüentes  palestras para empresários?”

Mas, já que estamos a falar sobre jornalismo, comunicadores, tentações, e chantagens, caberia a pergunta: Será que o radialista André Barros incorporou definitivamente a chantagem explícita ao seu ofício?

CHICO ROLEMBERG E O ESQUECIDO GUMERSINDO

Chico Rolemberg, ex-senador, ex-deputado que tanta falta faz ao nosso acanhado meio político, tão carente de talentos, de cultura, é, além de médico, notável cirurgião, também advogado, e um intelectual sempre militante das boas causas. Agora, ele constata que o nosso esquecimento do grande jurista, do cidadão que se tornou referencia no seu tempo, o sergipano Gumersindo Bessa, tem, como maior prova do desprezo dos pósteros , o abandono do seu túmulo no cemitério Santa Izabel, onde seus ossos estão expostos na tumba abandonada. Procurou então a OAB onde encontrou receptividade, e quer que uma iniciativa popular e do poder público faça, na praça ao lado da sede da OAB uma herma, onde ficarão os ossos e a estátua do jurista.

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