“Daniel do Cavaquinho”: Seresteiro, Cantor e Compositor

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Propriá/SE – A riqueza da cultura e história de Propriá é forte pela força do seu povo e acontecimentos ao longo dessa História que aos poucos vem sendo soterrada por falta de atenção dos que, por responsabilidade de cumprimento do dever, deveriam fomentar tais políticas públicas visando o fortalecimento, manutenção e resgate da cultura e história.

O Historiador e Professor bairrista de Propriá, Alberto Amorim, esse membro do CCP, tem em seus escritos diversas memórias sobre fatos e personalidades locais. Memória aguçada de uma pessoa enrriquita que lhe fez apaixonado pelas coisas mais simples de Propriá.

“Daniel do Cavaquinho”: Seresteiro, Cantor e  Compositor é um material de cunho histórico cuja essência tem grande valor cultural.

Adeval Marques

“Daniel do Cavaquinho”: Seresteiro, Cantor e  Compositor

*Por José Alberto Amorim

Em 22 de outubro de 1929, nasce na Fazenda Jundiaí em Propriá-Se, Daniel Faustino dos Santos, filho de Antônio Faustino dos Santos e Dona Maria Madalena Vieira dos Santos. O pai agricultor empregado da Fazenda Jundiaí, a mãe dona de casa, dedicada à confecção de rendas de bilros e tarrafas. Daniel iniciou seus estudos aos doze anos de idade incentivado pela sua genitora.

Mesmo morando na zona rural e não tendo condições de transporte, se deslocava a pé até a escola, situada na Rua Alto de Aracaju, em Propriá. Suas primeiras instruções foram ministradas pela professora Lourdes Monte Guimarães, filha do Senhor Martinho Guimarães.

Seu pai, mesmo sem a concordância de seu patrão, o Dr. Hercílio Britto, adquire uma pequena casa na Rua da Glória, 49 em Propriá, aonde vem residir em definitivo com sua família. Por ter sido um empregado exemplar, é autorizado pelo proprietário da Fazenda a plantar uma pequena roça, complementando o sustento da família com a pesca no rio São Francisco.

Daniel, ainda jovem com seus quinze anos, no intuito de ajudar nas despesas de casa resolve ser ajudante de pedreiro na construção do cais da cidade, no trecho compreendido entre a “banca de peixes” até as imediações do prédio da “Sociedade  Recreativa Cavalheiros da Noite”, função essa que só dura  três dias. Mas, Daniel não se conforma e, parte para outra investida, desta vez como “aguadeiro”. Propriá nesse tempo não tinha água encanada.

Seu genitor investe em um jegue, uma cangalha, quatro latas e dois caixotes de madeira completando o equipamento para facilitar o transporte de água retirada do rio São Francisco para a entrega nas casas das famílias mais abastadas.

Quando o SAAE- Serviço Autônomo de Água e Esgoto começa a implantar a canalização de água na zona urbana, acaba seu trabalho de aguadeiro, mas ele não desiste em arrumar recursos  para ajudar nas despesas de casa; envereda por outras atividades: ajudante de alfaiate por duas vezes , porém seus chefes sempre recomendando só ganha salário aquele que soubesse confeccionar  calça, paletó ou camisa, o que ainda não era o seu caso.

Após algum tempo, já com certa experiência no ramo consegue vaga na Fábrica de Tecidos Fiação e Tecelagem de Propriá  mas, por pouco tempo, já que logo a fábrica  fechou suas portas: “agente saiu com a cuia na cabeça” desabafa Daniel sem receber o dinheiro da rescisão.

Mesmo sem profissão definida Daniel contrai matrimônio aos 23 anos, com a alagoana Maria José de Araújo Gomes dos Santos, uma ex-colega de trabalho da Indústria de Tecidos. Especialista em doces caseiros Dona Maria José, incentiva o esposo a revender  os produtos que produzia no Mercado Central

da cidade. Autorizado pelo então Prefeito da época, o Sr. Luiz de Medeiros Chaves que lhe confere ainda a função de vigia no próprio mercado, conciliando as duas atividades, Daniel  sente-se na condição de manter um família e, surge assim uma prole de oito filhos sendo cinco homens e três mulheres: José Tavares dos Santos, Marcos dos Santos, Gilson dos Santos,

Gilvan dos Santos, Maria José dos Santos, Gildete dos Santos, Gilvanete dos Santos e ainda 09 netos e 16 bisnetos.

Na gestão da então Prefeita Maria das Graças do Nascimento Lima lhe é concedido aposentadoria.

Ocioso, ele retorna às notas musicais quando  tocava cavaquinho escondido do seu pai, pois ele era muito “ciumento com o instrumento”. Daniel adquiri então na feira livre de Propriá seu próprio cavaco. Auto didata, ele confidencia que desde os 18 anos  participava de chorinhos  com amigos, mesmo sendo aprendiz de outras artes.

Entretanto, somente depois da pensão é que se destaca como “Daniel do Cavaquinho” nas regiões de Sergipe e Alagoas, foi “se soltando” e torna-se um artista interestadual apresentando-se em Itabuna, Ilhéus e Salvador (Ba) Recife (Pe), dentre outros estados.

Em Propriá foi que conheceu Oseas do violão, “Tonho Januário” do saxofone, “Juca” do pandeiro.

Após apresentação em Muribeca-Se, na manhã do dia 1º de janeiro de 1987, já próximo ao trevo rodoviário do município de Propriá na BR-101, um terrível acidente  desfaz o grupo musical. Na tragédia o violonista “Oseas alfaiate” como era mais conhecido tem sua vida ceifada. Daí em diante, Daniel perde o entusiasmo pelas apresentações e shows.

Dentre outras músicas que compôs sobre o acidente destaca-se:

Coitado do meu cavaquinho

Que chorou por mim naquele acidente

Que tristeza eu jogado

Quantas lágrimas derramadas ao meu lado

Coitado do meu cavaquinho

Ele e eu, sofrendo e quase morrendo de dor

O que aconteceu

Eu não gosto de lembrar

Eu canto este samba

Pra ninguém me ver chora

                                               (Letra e Música de Daniel do Cavaquinho)

Com o falecimento de sua esposa há cerca de sete anos, Daniel entristecido, abandonou o cavaquinho. Hoje morando no mesmo endereço na Rua da Glória, 49, com raríssimas exceções ainda toca  e canta algumas músicas para poucos amigos.

Por José Alberto Amorim

*Licenciado em História, Especialista em História da África e das Culturas Afro-brasileiras, Membro fundador do CCP- Centro de Cultura de Propriá.

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