CONTO DE FICÇÃO: A GRANDE MÃE NEANDERTHAL

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De Ya e Ló surgem Nac, Duo e Noa. A extinção dos neandertais dá inicio à nossa raça: Homo-sapiens. Essa é uma História que não devíamos esquecer. Material com vídeo.
Ela estava sentada no cume da colina de uma pequena elevação de um pequeno morro de areia a beira da praia. Seus cabelos longos e cheios esvoaçavam sob o vento forte que vinha da direção em que ela observava: o Norte. Sua face era séria prestando atenção em tudo à sua volta. Em seu redor estavam um grupo de crianças que, sentadas, brincavam com a areia e galhos de árvores trazidos pela maré alta. Ela já estava com a idade de quarenta anos. Era considerada já idosa. Uma vida dura de tantas idas e vindas, caçadas, correndo de predadores, condições climáticas, de alimentação e grandes jornadas tinham-lhe feito dura como uma rocha. Era agora a chefe do seu pequeno Clã e todos nutriam por ela grande respeito e devoção. Todos a chamavam de Ya: A grande mãe de todos os neandertais.
Ya havia vindo de muito longe numa imensa jornada até as cavernas da Europa Central. Seu grupo começara com mais de duzentos humanos e agora não passavam de noventa. A maioria deles eram de homens e poucas crianças meninas que, em breve, já aos treze anos, seriam mães. A vida na sociedade do grupo, para as mulheres, começava muito cedo porque cabiam a elas cuidar do grupo quando os caçadores saiam em busca de caça por longos dias; cortavam o couro dos animais, retiravam a carne e faziam agasalhos. Era uma vida entre trabalho, longas caminhadas e procriar. Um ciclo interminável de vida. Ya olhava atenciosamente para o Norte vasculhando a imensidão da praia e a vegetação que estendia por trás dela. Ela estava grávida e em breve daria a luz a uma criança. Já não podia mais continuar em frente. Era preciso achar um lugar para fazer uma parada com o grupo e ficar ali por alguns dias e até meses. Em toda sua vida ela havia dado a luz à dezesseis filhos, entre homens e mulheres. Desses haviam sobrevivido apenas oito e um deles era Nac: o Grande caçador.
Ainda na praia Ya pensou: “A noite não tardaria a chegar. Era preciso se organizar”. Ela começou a dar ordens aos homens que prontamente lhes atendiam e logo havia uma grande fogueira, muita carne de diversas caças, aves e peixes pescados ali mesmo na praia. Os neanderthais eram exímios caçadores e pescar não foi difícil. Os sentinelas foram posicionados em lugares estratégicos e a cada seis horas revezavam-se.

Na areia foram abertos buracos em forma de covas que eram cobertos com folhas e as poucas crianças mais novas dormiram ali mesmo aquecidas pelas chamas da fogueira. Ya sentia imensas dores nas costas e nenhuma posição que ficasse lhe era satisfatória. O parto que haveria da dar não estava longe.

Com a chegada da noite se estendendo, Iá percebeu que os homens que ficaram para trás não conseguiram chegar a tempo. Os homens que estavam com elas eram jovens demais e apenas alguns de quase sua idade estavam lhe ajudando. Ela era uma líder nata. Tinha grande experiência acumulada de vida, saberes empíricos que lhe foram repassados por seus pais e antepassados. Sua lança, apito feito de canela de Búfalo, um saco com muitas ervas, chifre de boi, dente de cachorro, banha de repteis, penas de pássaros, resina de árvores e uma ponta de pedra que riscava eram seus pertences inseparáveis. Ela nunca os separava de si.
Olhou para o céu observando os sinais e viu que a noite seria de vento e não choveria. Analisou o caminho das estrela e disse para um dos sentinelas que estava próximo dela: – Logo cedo, antes do Sol nascer, partiremos para achar uma caverna segura. A praia não oferece proteção e eu preciso mim preparar para parir. Vamos deixar marcada nossa trilha e assim os caçadores poderão nos achar. O sentinela lhe perguntou: – Iremos para onde, Ya? Ela então respondeu: – Para mais adiante pelas matas até achar uma caverna segura. Dizendo isso foi dormir em uma cova ao lado das crianças. Colocando sua lança ao seu lado ficou mirando as estrelas e adormeceu.
A noite passou rápida e o Sol nem havia nascido quando ela se acordou. Deu ordem para que todos se acordassem. Esperou que uma pequena luz do Sol abrisse um pouco a visão para verem o caminho, pegaram os pertences e saíram de forma muito rápida entrando na mata. Ela sabia, por experiência que, pela manhã, era uma hora boa para caminhar o máximo e ganhar tempo. Pelo caminho foram deixando rastros, pegadas fortes, quebrando galhos por onde passavam para identificar, aos caçadores que estavam a dois dias de atraso, por onde haviam percorrido a rota. Por volta das 10 horas eles alcançaram uma grande rocha não muito distante de onde estavam. Era uma grande caverna com água limpa e um bom espaço em volta. Selecionou os mais fortes do grupo e ordenou que eles fossem inspecionar a caverna que, ao voltarem, sinalizaram como um lugar seguro para ficarem.
li mesmo Ya sentou-se e numa pequena pedra em forma de concha, que trazia como pertence, começou a esmagar algumas ervar e outras misturas. De quando em vez ela levava a misturava até a boca e mastigava obtendo o sumo e juntava com mais ervas diferentes até que ficou espeça como uma pasta de abacate. Juntou tudo com as mãos e, escolhendo um lugar no fundo da caverna, ela limpou o ambiente e mandou que fizesse uma fogueira, folhas enormes de plantas e sentou-se. Ao seu lado estavam algumas crianças pequenas que, ansiosas, lhe olhavam entendendo que alguma coisa diferente estava por acontecer. Ya daria a luz ao seu 17º filho.
Eram já por volta das 15 horas quando os caçadores que ficaram para trás chegaram. Traziam consigo muitas caças e peles. Todos da caverna correram para ver quem chegava. Os sentinelas de prontidão gritavam em alegrias informando que os caçadores haviam chegado. Uma grande festa com abraço, beijos com a língua sobre a face dos caçadores era dados em sinal de atenção e satisfação pela chegada deles. Tapas, empurrões, etc. Uma forma de comunicação diferente onde era preciso mostrar um gesto físico para dizer que estavam felizes por vê-los de volta. Aqueles homens passavam segurança, entretanto, Ya, era mais importante porque transmitia a vida. Nela estava a continuidade da espécie humana do grupo e por isso era venerada e chamada de a “Grande Mãe”.
Os caçadores souberam que Iá estava no fundo da caverna sentido dores de parto. Foram ao seu encontro e a observaram. Ló, o caçador mais forte e um dos mais antigos do grupo tinha a mesma idade que Iá. Ele era o pai da criança que estava para nascer. Tinha por Iá uma adoração, pois nasceram na mesma época aprendendo a caçar e dominar diversas técnicas juntos e ficaram juntos. Uá, outro forte caçador, ofereceu carne fresca a Iá, mais ela recusou torcendo o pescoço para o lado direito. Aquela altura Iá já sofria com as dores há cerca de três horas. Então ela deu o sinal à uma das jovens moças que já havia dado a luz meses antes com o auxílio de Iá, era Ica a neandertal meia ruiva. Ela dirigiu-se aos pertences de Iá e pegou a porção que horas antes Iá havia preparado. Deu à Iá que colocou na boca e mastigou um pouco fazendo uma forte cara feia e retorceu-se de todas as formas. De repente começou a querer vomitar mais Ica lhe foi em amparo e ajudou a fechar sua boca para conter o vômito. Iá estava já erguida entre duas pedras grandes semi acocorada de pernas abertas apoiadas pelas mãos, cada uma em uma das pedras. Sentia fortes dores. Mesmo em meio de muito ela estava só naquela hora. Gritou um pouco e começou a fazer força para que o bebê nascesse. O suor descia em profusão desde a cabeça até os pés. Estava completamente nua. A barriga enorme, os seios erigidos. Balançava a cabeça ora para frente, para os lados e ora para trás. Dores e mais dores.
Ica, Noa, Uéc e Daô estavam ao seu lado em auxílio. Ló, o pai da criança, observava aquele momento de perto. Já havia observado muitos partos e até ajudado em várias ocasiões. Sua mãe Bó, que já era falecida, foi uma eximia parteira e passou os conhecimentos para Iá, Uem e Dá. Dessas apenas restava Iá que já estava em idade avançada porque no mundo dos neandertais a perspectiva de vida era até os quarenta e alguns anos. A vida dura, ossos quebrados pelas fugas de caças, acidentes e instabilidade fragilizavam o homem que nessa idade já se encontrava cansado. Ló lembrava de algumas ocasiões, quando ainda era mais jovem, onde algumas mulheres davam a luz em plena jornada de caça quando eles caminhavam acompanhando as grandes manadas de Mamutes, Búfalos e Bisões. Agora Ló e Iá haviam herdado a responsabilidade de conduzir seu povo neandertal e aquela criança era a prova de que sua raça, seu Clã, continuaria. Ele estava feliz, pois era o seu vegissimo quinto filho. Ele havia tido filhos com outras do grupo. Só com Iá eram oito. Havia perdido também alguns que morreram de forma natural e outros em acidentes de caças ou enfrentando feras perigosas. Era a vida deles, o mundo primitivo e rude do começo da nossa espécie humano. Os desafios eram diários e sobreviver não era para os fracos. Várias covas de seu povo haviam ficado pelos caminhos sepultados dentro de cavernas, nas encostas dos morros ou simplesmente no cume de alguma montanha. Foi assim com seu pai, que também chamava-se Ló e sua mãe. Era a vida, o mundo dos neandertais. Ló tinha tudo registrado em sua mente desde muito cedo foi ensinado e aprendeu a gravar os sinais e as lembranças. Ló não podia esquecer de onde viera naquel mundo enorme e desafiador. Ele e seu povo precisavam sobreviver.
De repente a minúscula cabeça começou a surgir da vagina de Iá e foi ai que ela dobrou suas forças suando mais ainda, contorcendo o rosto, os lábios e então começou a tremer. Um grande grito das sua alma, atravessou toda nave da caverna e foi perder-se entre as matas ecoando até o espaço. A criança então, nesse momento, desceu por completo e foi amparado pelas grosas mãos da jovem Ica. Uda, outra jovem neandertal, estava com uma lasca de pedra já nas mãos, também era parte do acervo de Iá. Segurou o cordão umbilical e bem no pé do umbigo aplicou o corte que separou mãe e filho para sempre. Enqunto isso, para surpresa de todos, outra criança também nascia seguida de outras. Iá deu a luz três filhos, sendo a primeira e a segunda mulheres e o último um menino. Todos foram enrolados em peles de Mamutes e de Bisões. Iá, ajudada pelas jovens que lhe auxiliavam, foi levantada e removida à alguns metros e deitou-se sob enormes folhas e cobertas por uma pele de um Mamute enorme. Sangrava um pouco mais tinha a face em paz como se estevesse muito cansada de uma longa jornada. Ouvia, de longe, o som dos recém nascidos que eram cuidados por todos.
Ica entregou o menino ao pai, Ló, que o levou para fora da caverna onde já havia uma enorme fogueira acessa. As primeiras estrelas já estavam na constelação de Orion. A lua estava surgindo ainda no leste de onde haviam vindo da direção do mar. Erguendo a criança nos braços, acima de sua cabeça, Ló mostrou-lhe o firmamento e disse-lhe: “A única coisa maior que você é o céu, Noa”. Nessa hora todos os neandertais levantaram as lanças e gritaram Noa! Noa! Noa! As meninas chamavam-se, da primeira para a segunda, Nac e Duo. O menino, que chamou-se Noa, seria o líder do Clã, o grande caçador. As meninas acumalariam os saberes empíricos que eles necessitavam para progredirem.
O lugar era abundante em caças, havia água doce e a aproximidade ao mar dava todos os indícios de que era possível viver ali por muito tempo e assim foi. A caverna teve várias partes das paredes pintadas com imagens ilustrando o dia a dia de vida deles; as caçadas, o luar com estrelas, lua e sol, vários animais, caçadores, sepultamentos de pessoas, rituais e tantas outras páginas foram gravadas para manter a memória histórica viva. A saga humana.
As crianças tornaram-se jovens com as demais que nasceram na mesma época e depois adultos seguindo os passos de seus antepassados. Sempre orientadas pelos mais velhos e nisso Ló e Iá tinham papel importantes porque transmitiam os ensinamentos adquiridos ao longo do tempo aos mais jovens do grupo. Na época de inverno Iá e outras mulheres jovens faziam da caverna um verdadeiro atelier. Ali escamavam as grandes peles para fazerem seus agasalhos e cobertores. Com ossos e espinhas de peixes confeccionaram agulhas e costuravam as peles dando-lhes formas. Colares de conchas ou com dentes de animais e pequenas esculturas de madeiras eram fabricadas para ornamentar os mais importantes do grupo, como por exemplo, um caçador que se destacava pela bravura e número de caças que conseguia abater ou simplesmente por dar cabo à algum animal feroz. Estudavam nessas épocas também o aperfeiçoamento do domínio do fogo e assim aprenderam a levá-lo aceso por onde fossem em suas jornadas intermináveis e também a obter-lhe através da fricção com dois paus. Estavam em processo de evolução lenta. Iá estava sempre orientando e assim, todos a chamavam de Iá: a grande Mãe. Lé era o grande caçador.
O grupo cresceu no decorrer de dez anos ali na grande caverna. Alguns partiram e não voltaram mais, entretanto, a grande maioria ficou ali mesmo. Ló, o grande caçador, já velho morreu vítima de um confronto com um Bisão juntamente com outro caçador do grupo, Aô, em uma das caçadas que sempre faziam. Tinha então quarenta e seis anos de idade, Vários de seus ossos pelo seu corpo tinham enormes fraturas devido a luta com animais. Aô tinha 35 anos. Ló foi sepultado na caverna com sua lança, colares e um pouco de comida. Sua cova rodeada e coberta de pedras tendo ao lado flores. Os neandertais acreditavam na vida após a morte.
A grande Mãe: Iá. Ela viveu por muito tempo transmitindo seus ensinamentos e liderando o grupo. Era sempre solicitada a aconselhar. Ensinou a fazer partos, tratar de doenças, enfermidades e fraturas e também a colher as ervas necessárias para tratar os doentes. Acrescentou algumas ervas à farmácia natural do grupo e fazia unguentos, beberagens e emplásticos com porções de ervas que machucava com o seu pequeno cilindro de madeira em uma pedra côncava que levava consigo em seus pertences. Ela atravessou, desde criança, vários territórios com o seu povo que seguiam as caças – nômades. Desertos, lugares gelados, pântanos e florestas até se encontraram na Europa central. Sempre viveu andando. Fome, sede, calor, frio, correr das feras, perda de entes queridos, dormindo de qualquer jeito e sempre em sinal de alerta, fizeram dela um ser muito forte e em meio a tudo isso ter que gerar a continuação do grupo desde cedo, com idade de treze anos. Sua jornada não foi fácil. Agora estava velha e cansada. Era adorada mais tinha que partir. Sentia o tempo lhe chegar ao final.
Iá acumulou muita experiência e passou tudo que sabia e acrescentou outras descobertas de sua autoria, como adicionar sal na comida depois que conheceu o mar. Ficou viva por muito tempo e faleceu com mais de cinqüenta anos na chegada do grande frio que cobriu parte da Europa. Sua caverna ficou coberta de gelo e a caça foi para mais longe onde o frio era menos. Com isso os caçadores partiram em busca de comida e não voltaram. Os poucos homens do grupo que ficaram limitaram-se a pegar o insuficiente para comer e houve racionamento de comida. Uma manhã, antes do sol nascer, Iá se foi: a noite levou Iá, disse Noa ao grupo. Ela foi sepultada ao lado de Ló, o grande caçador, na mesma caverna com sua pele de Mamute, algumas conchas, um colar que ela mesma fizera e sua lança com ponta de pedra polida que lhe pertencia desde criança e fora dada pelo pai, Ôa. Um grande choro se abateu entre todos porque ela era a grande Mãe, aquela que tudo sabia e tudo ensinava. Sua autoridade era incontestável. Sua cova fora coberta com as mais belas pedras. A posição que fora colocada era a de forma fecal, simbolizando que ela estava dormindo e nasceria outra vez. Sua sacola com pertences ela dera, meses antes, como patrimônio do grupo e preparou Nac, Adi, Lou e outras jovens mais como conhecedoras e detentoras dos ensinamentos para que assim não se perdesse o conhecimento. Os novos líderes eram Noa e Duo. Nac, a mais velha, era uma espécie de curandeira, artista, astrônoma e pajé. Noa seria o último dos líderes dos neandertais e Nac da mesma forma.
Anos depois, já superado a morte de Iá e Ló o grupo fora surpreendidos ainda pela maadrugada logo cedo por um grupo de homens estranhos. Esses então, com uma melhor tecnologia de armas mais leves e lanças pontiagudas com chifres de veados, mataram todos os homens do grupo, inclusive as crianças. Só as mulheres foram poupadas e levadas com eles para servirem de escravas. Eram a nova raça de Cromagnon que, do cruzamento dom os neandertais, originaram os Homo-sapiens, ou seja, os humanos atuais. Nac e Duo e outras várias jovens tiveram filhos fazendo surgir a nova raça humana que somos hoje, porém, o legado de Iá, permanece entre nós através do DNA mitocondrial que só é transmitido pela mãe e graças a ela sobrevivemos, a raça humana pôde chegar onde estamos.
FIM
Esse é um material para quem gosta de História. Apesar de ser um fato de ficção é possível que algo próximo tenha acontecido com base nos estudos que existem e fiz. O curso de Licenciatura em História pela UNIT, as pesquisas em livros e vários artigos, além de vídeos e documentários, atestam que algo dessa natureza pode ter acontecido.
Adeval Marques
Licenciatura em História/6º Período/UNIT
Apaixonado por História primitiva da evolução humana.
Obs: Material sem revisão.

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