REFLEXÃO: SEM AMOR PROPRIÁ ENTRA EM DECLÍNIO TOTAL

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Propriá/SE – Santo Agostinho, um dos maiores teólogos da Igreja, considerado como Dr. da Igreja, afirmou: “A esperança tem duas filhas lindas, a indignação e a coragem; a indignação nos ensina a não aceitar as coisas como estão; a coragem, a mudá-las.”, Propriá decide a rota em que vai.

Se alguém interessado em informação histórica procurar fazer uma pesquisa através das fontes orais ainda existentes e também percorrer os anais dessa mesma história relacionando material palpável que esteja mofando nos arquivos públicos de algum órgão da cidade tomará conhecimento de que, o que mais faltou em Propriá, para sua continuada de ascensão em ser uma das cidades mais reverenciadas/referendadas e com qualidade de vida no Estado, foi atenção política.

Na entrada do século XX, até 1960 e um pouco mais adiante, Propriá era a Princesinha do Baixo São Francisco. Religiosidade forte, economia estabilizada, comércio próspero, centro de intelectuais, indústrias instaladas, linha ferroviárias, avião levando e trazendo notícias, jornal, diversos órgãos, cinemas, estádios de futebol com dois times rivais da própria cidade. Etc. Cultura, história e sociedade bem edificadas. Propriá, para muitos, parecia o centro do mundo. Uma pequena New Orleans do mesmo século, como alguém viajado pelo mundo chegou a dizer. Quem vivia em Propriá, mesmo a deixando para aprimorar os estudos ou por outros motivos, dizia um dia voltar e em lágrimas seguia levando consigo a imagem do Opará – rio São Francisco -, as procissões, os carnavais, a fartura do bom viver da cidade. Propriá era a terra querida e bem cuidada por seu povo e os homens dos poderes. Depois da década de setenta, mais forte ainda que sessenta, algumas mudanças começaram a surgir e ela entrou em declínio total.

Pergunta-se aos homens que tomaram a cidade para administrar o que lhes faltou para manter como base de projeto a boa imagem e qualidade de vida do povo propriaense (?); por quais motivos o nosso patrimônio arquitetônico e histórico não tem um estudo de tombamento para preservar a nossa identidade social (?); qual a razão de tanta falta de compromisso com uma das maiores populações do Estado em franco crescimento que por essas décadas vive da esperança de que seus administradores sejam mais presentes e representem o povo (?). Propriá é triste hoje e vive da força de seu povo que inventa de tudo para sobreviver. Para evoluir é preciso amor próprio.

Um dos maiores Prefeitos da história política de Propriá foi o empresário Hercílio Porfírio de Britto. Com sue pai, Francisco Porfírio de Britto “Coronel Chico Porfírio”, ele fundou a fábrica de tecelagem Propriá em 1912. Empregou, em seu apogeu, mais de mil almas. Bem sucedido o Dr. Hercílio tinha fazendas em pontos do Baixo São Francisco, a Fábrica de Curtume de Canindé, gado, embarcações e com isso obteve respeito. Candidatou-se para o cargo de Prefeito de Propriá fazendo diversas melhorias na cidade. Foi em seu tempo que a cidade ficou muito conhecida ganhando a homenagem com o título tão conhecido: Princesinha do Baixo São Francisco.

Sem nos atermos ao período da Ditadura, iremos encontrar Propriá já na década de oitenta. É nesse ponto em diante que, na leitura de muitos cidadãos formadores de opinião e dos que, mesmo sendo desprovidos de certa intelectualidade, avaliam que a cidade de fato entrou no que chamamos de “Grande Solidão”. Esse fato se dá em função de uma sucessão de gestores que administraram a cidade sem desenvolver projetos que a contemplassem o desenvolvimento social e o futuro que sua população merecia para viver com maior dignidade. Há quem diga que, analisando friamente e com cautela, foi uma sucessão de gestores sem amor pela cidade, muito embora haja diversos fatores – bem poucos – que merecem destaque.

A cidade cresceu, sua população e os problemas sociais acompanham o ritmo e na contra mão a economia entra em certo sufoco fazendo o grito de “É cada um por si”. Desemprego, assalto, drogas, ruas sujas e até prostituição infantil é registrada na cidade substituindo a dignidade que um dia ela teve. Ainda falta muito amor e comprometimento político para a cidade e sua população voltar a ter orgulho. As ruas sujas onde cachorros famintos disputam um pedaço de osso no final da feira no dias de sábado. Gatos que fogem de ratos enormes no centro da cidade em plena Tavares de Lira onde baratas, lixo revirado, pedintes, e indigentes parecem ser uma mesma sociedade enquanto no alto falante de uma pequena rádio via cabo insiste em permanecer viva tocando melodias antigas de uma Propriá saudosa com a música “Domingo a tarde” do saudoso Nelson Ned. No trecho a música diz: “O que é que você vai fazer, domingo a tarde…”. Não tem mais para onde ir. Não existe laser. Os cinemas se foram e a diversão do momento é feito de outras maneiras. Enquanto isso, lá em outro ponto da cidade, a noite vem chegando e jovens sem habilitação guiam suas motos com a mistura de álcool e sabe-se lá o que. Empinam motos, ultrapassagens perigosas e uma fiscalização precária faz vista grossa. A criminalidade de vez enquanto encomenda um “sorteado” que é notícia nas redes sociais e em tudo isso se pergunta a população: onde estão nossos representantes?

O novo processo político que se inicia na cidade tem uma grande responsabilidade por parte dos que pretendem disputar as eleições municipais de 2016, quer seja na esfera de Prefeito ou de Vereador. Repensar toda trajetória política dos, no mínimo, trinta anos é interessante para entender que Propriá declinou devido à diversos fatores e o preço está sendo pago no presente. Necessário se faz buscar uma política que contemple o espaço para a juventude preparando o solo às futuras gerações. É inadmissível que o caminho pela política seja só para resolver questões pessoais, como afirmou E. P. M. de sessenta anos de idade. Propriá vive uma crise de falta de líderes, é o que parece.

Na antiguidade os líderes eram respeitados por suas ações. Nas tribos indígenas os chefes eram escolhidos pela bravura, grau de competência e o quanto de dedicação havia para com sua nação. Na sociedade atual os critérios evoluíram e quem trabalha melhor a questão do marketing político se sai melhor, ou seja, vende-se a imagem de bons samaritanos. Na maioria.

Se os homens, enquanto líderes falham, a sociedade entra em declínio total perecendo assim toda conjuntura. Desse ponto em diante entra em cena o que já dissemos: a grande solidão. Nada é pior que isso e é justamente como Propriá vive hoje, numa análise sincera.

Como disse Santo Agostinho, nas entrelinhas da sua frase, sem amor Propriá entre em declínio total. Ela decide a rota em que vai.

Da redação

Adeval Marques

Graduado em História/Unit

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